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2008-06-23

MEMÓRIAS DE UM ANTI-DESTINO


Quando a gente se começa a habituar a um presidente, tiram-nos. O presidente Sampaio não era grande coisa, mas tinha qualquer coisa de tranquilizador, de avozinha. Punha-se a falar e parecia que o fazia com uma paixão que só ele compreendia. Via-se que não ensaiava em casa, não repetia os discursos, e se calhar até os escrevia, mas depois não os lia. Não era um actor. Tinha pose de irmão marista, de advogado relativamente exemplar. A sua careca não ofendia, a não ser quando a câmara o apanhava por detrás. Tinha um mau gosto razoável na roupa, ou seja vestia o politicamente decente fato cinzento, amigado a uma camisa azul por vezes. Em geral não dispensava a gravata como o fazem aqueles meninos bem do bloco numa de operariado e ficava mal de boné de pála como toda a gente.
Não me lembro, nem ninguém se lembra, de uma só frase sua. E se o homem falou! Ao pé do doutor Sampaio sempre muito prolixo e dado ao deus do verbo, o actual presidente cuja voz se deteriora a olhos vistos faz figura de aléxico, de uma aproximação alarmante ao estado da afonia.
Ao lado do Dr. Sampaio, como presença feminina, em vez da actual loja de venda a retalho, aparecia uma mulher cujo rosto consolava. Ou seja, tinha um rosto cavalar, coisa sempre simpática, porque induzia pensamentos redondos, cheios de pastagens, baldes de madeira, entardeceres com cheiro a feno. E parecia o irmão mais velho (e mais alto) dele. Coisa simpática um homem, um estadista com qualquer coisa de avozinho acompanhado pelo seu irmão-mulher.
Ouviam-se dizer coisas dele, que tinha cancro no nariz - de facto tinha o nariz bastante vermelho. Que bebia as suas copadas mais do que liberais - alguns dos seus discursos de voz fanhosa e entaramelada poderiam levar a esssa suspeita. Mas nós os portugueses adoramos calúnias, aliás precisamos de uma dose regular delas, que depois misturadas com semiverdades, nos dão as nossas narrativas favoritas, que demonstram fatalmente que quem ascende é um pulha porque só os pulhas ascendem.
Filho de um médico, o presidente Sampaio tinha qualquer coisa de médico - atendia toda a gente, tinha uma disponibilidade imensa para pronunciar um diagnóstico invariavelmente confuso sobre o estado do país. Admira que ele não tenha dado que Portugal estava em estado de coma há quinhentos anos? Bem, não é de admirar porque muitos antes e já depois dele não deram por nada, e pronunciaram-se airosamente sobre o pré-cadáver nacional.
A série dos nossos presidentes inclui uma vasta galeria de semigloriosos nobodies mais ou menos fardados, que acabam em múmia estatal, numa coisa chamada museu da presidência, onde avoenga mania genealógica ( da qual sou adicto) pontificam os retratos.
Uma das únicas pintoras internacionais que nós temos, Paula Rego, deve ter executado uma das suas piores obras ao retratá-lo. A Paula Rego, que é tão boa na sátira, e na expressão do secreto grotesco nacional, na exploração do sado-masoquismo infantil que permeia o litoral e as profundezas das nossas lusitanas mentes, não foi capaz de se confrontar com o amigo e com o presidente. Fez um Sampaio de lata, nem sardinha nem salchicha. Qualquer coisa de escolar quanto ao sentimento, de impreciso quanto à função, de patético em relação ao destino público da obra.
Mas devo dizer que quando eu via o Dr. Sampaio - cruzei-me com ele umas vezes, sempre no Museu de Arte Antiga - julgava sempre que era presidente doutro país, de uma Roménia british, de um local um pouco hermético e inconsistente e à deriva como os seus discursos. Uma vez cheguei a pensar que ele era o presidente da Ilha Misteriosa, do Júlio Verne. Mas isso são impropriedades e incompetências minhas.

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