/* PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して - 風想像力

PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して - 風想像力

LES PRIVILÉGES DE SISYPHE - SISYPHUS'PRIVILEGES - LOS PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO - 風想像力 CONTRA CONTRE AGAINST MODERNISM Gegen Modernität CONTRA LA MODERNITÁ E FALSO CAVIARE SAIAM DA AUTOESTRADA FLY WITH WHOMEVER YOU CAN SORTEZ DE LA QUEUE Contra Tudo : De la Musique Avant Toute Chose: le Retour de la Poèsie comme Seule Connaissance ou La Solitude Extréme du Dandy Ibérique - Ensaios de uma Altermodernidade すべてに対して

2014-02-20

A MÚSICA DENTRO DO NADA


qualquer voz nua autóctone tem mais de uma máscara
somos do país que viveu atrás das fontes
e evitou com todas as cautelas voltar a ouvir a voz do vento
agora chegam da montanha os uivos dos cisnes
mas tardias são todas as nossas asas e enxofradas
pela quezília fenícia sem fim que expulsou
os deuses gregos de cada praia

não vale a pena ouvires os aúgures da televisão
os críticos da economia e os homens de cara
apagada a borracha como os ministros vários
todo o calcário das ruas que é branco
tem hoje uma cor lívida

no entanto uma nuvem eleva-se
e tu és a mente que a envolve como um pássaro dentro
de uma gota de chuva

Teste

2012-11-24

APR.REALIZADORES.PORTUGAL: A TEMPESTADE de Teresa Garcia na Cinemateca de Bélgica - Bruxelas - 26.11.2012

APR.REALIZADORES.PORTUGAL: A TEMPESTADE de Teresa Garcia na Cinemateca de Bélgica - Bruxelas - 26.11.2012

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2011-01-15


este blog tem estado estático, mas ainda assim vem cá leitores e bastantes - obrigado pela vossa presença. Vamos recomeçar a pouco e pouco. Não faltam temas - o mundo está sempre a re-escrever-se - e não vai parar enquanto existir. Estava quase a falar das eleições - mas estou a captá-las na oblíqua - não vejo televisão há meses, nem quero. O mundo sem ser filtrado pela televisão apresenta muito mais vasta, melhor e vária realidade.

2010-08-26

O LIDL de SINES


Se alguma coisa pudesse simbolizar o pesadelo concentracionário, a tendência laboratorial, a redução da comida a cápsulas abstractas, o Aviário Humano ou melhor dito o Aviário Umano, essa coisa-caso, essa coisa caco lógico e racional, essa escola do intestino. essa norma do Peido Milimetrizado, é sem dúvida um Supermercado.

Seremos recordadøs como os infelizes cósmicos que compravam - e pior ainda se deliciavam - com super-mercados.

No abjectíssimo e recente caso do Supermercado LIDL aberto em Sines no tempo dos Cérebros-Completamente-Buraco registemos com tinta forte vermutizada com o camelo da dúvida que este ínclito supermercadomerece o Prémio Abjeccionista do Ano. O neo-pesadelo alimentar não poderia estar melhor milimetrado.

O triunfo do Enlatado! O triunfo dos Vinhos de Marca sem marca! O Triunfo dos Vinhos Sem Marca de Marca. A expulsão definitiva do talho! As mãozinhas salubres do Vegetariano de Lata!

Eu acho que o Xanax se encarnou em supermercado, neste caso muito mais do que em todos os outros. E se alguém entrar neste supermercado e sair de lá a sorrir é porque é dos nossos, um Abjeccionista. Um Inactivista. Em geral, sai-se de lá com a lata amolgada do cerebelo a chocalhar. Com a glândula pineal a ser vista num acto sexual infame com uma rolha de garrafa. Com as cápsulas supra-renais vendidas ao arménio das gravatas.


Se alguém quiser a definição do amorfo rectilíneo, da solução racional, da funesta lógica gestora, da ocupação "racional" do espaço" vá lá ver as mais tristes paralelas do planeta.

Se estiver a programar a sua família de abortinhos com-lugar-na sociedade, vá lá, gaste lá, gaste-se lá. Deixe a cada vez a sua espinal medula estendida como tapetinho. Agaredeça ao rato do seu computador estas ideias. Lamba-se com ziliões de caixas. À saída dê o seu salto quântico em direcção à perpendicular da bisscetriz que é a sua Espozita.
Faça coisas tintas com ela. Leve-a ao estado de frango. Que bom. Adoro a vida moderna. Tintemos no desalcoolismo!

2010-05-01

A Indústria Zen do Não Pensamento

assinalei a mim próprio o lugar no jardim:
a zona das caricas enferrujadas
fede? a cão, sim. a gato, a pirosfosfato
gostei de ver o arco-íris inválido
que veio chegando com a sua bengala
fosfática.

há coisas piores.
O O'Neill sem velhinha.
O Mick Jagger sem o dente de ouro -

o guarda, um Pião veio a rodopiar.
gostei de ver o guarda Pião. Coleccionei-o
com a severidade erótica de um Marquis de Sade
desordenando armações de óculos na Tudóptica.
(só pl'a rima, ma belle, só elle!)

afinal, beleza, era piona.
Dona de dois círculos imperfeitos e perfeitos.
Grande festa pelos malmequeres,
depois do moscatel e do pão de luar.

TERMINAL DO PORTO DE SINES EM EXPANSÃO





uma outra nova auto-estrada para acreditar na imbecilidade de outro parking,
um novo terminal no porto para crer na fé doutro petroleiro a entrar pela Ibéria
um novo centro comercial para se recusar ao centro íntimo e desviante que não vende nada

o país dos vendedores bombinha e o país dos devedores pírulas
um outro comboio para ligar dois cadernos de encargos a duas agendas políticas
mil e uma carruagens para conceber mil e uma noites com insónia e febre
ah mas felizmente as indústrias zelam, elas velam, não te deixarão morrer
tirar-te-ão cada angústia e cada prego, terás um pargo na boca a toda a hora
e o olhar limpo pelo Flúor! e é tão bom sondar o futuro com ossos de asfalto

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2010-03-23

Qui d'autre: Pèrec!

Depois de nos descrever que Fradique parecia "ter emergido , havia momentos, de quinzena preta e barbeado, do fundo vivo da Natureza", assim conclui Eça a apresentação de Fradique Mendes: "Só quando sorria ou quando olhava se surpeendiam imediatamente nele vinte séculos de literatura."

Não vou calcular quantos séculos atrás e sobretudo à frente se desprendem do olhar elétrico e magnético de Pèrec. Mas há homens que se tornam Sol, da cor que quiser imaginar.

2010-03-17

OS QUE TEM MEDO DA INTERNET





Photoshop

Photoshop

Photoshop


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2010-03-05

GREVE CEREBRAL PERPÉTUA




Como tornar uma greve interessante? Esta é que seria uma pergunta decisiva, porque na realidade as greves são exercícios do maior aborrecimento possível. Nem se está a trabalhar, nem se está ludicamente a não trabalhar, também não se está a "lutar", por mais que os dirigentes sindicais carreguem nessa tecla.
Umas quantas pessoas (os militantes) marcham, empunham uns cartazes, gritam uns slogans. Um dirigente ladra umas coisas. Os punhos erguem-se. Os rostos exprimem ressentimento. Somos vítimas de. E de. E de. Um trabalhador ressentido e irritado diz umas coisas. A televisão regista o momento. Mais tarde a Constança Cunha e Sá com ar perplexo comenta. Mas a maior parte das pessoas, dos grevistas, fica em casa a ver televisão.
Por mais upgrade que se lhes meta parece que as greves são como aqueles animais pré-históricos que ficaram cativos nos gelos siberianos. Não mexem, não mordem,não vão alterar nada - e vão ocupar espaço no lixo geral que são as televisões e os jornais.
E se por exemplo os grevistas, depois de se terem tornado maravilhosamente belos, viessem todos nus?
Talvez nos dessemos então conta que o nosso estimadíssimo e odiado país está em greve cerebral perpétua há vários séculos.


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2010-02-20

TU LOU, POÈME D'AMOUR

enquanto o espírito de Deus e o poeta
num grande ajuste de contas
se estrangulam num beijo a mais e errado
Deus canta por poetas tortos
e inscreve asas em penedos tontos

então as canções de abril
(todas mázinhas, valha-nos Deus)
vão mais uma vez beber xanax
à fonte, à única,
à Fonte Luminosa

e a maria da fonte de seios à vista
ergue de novo a espada e desafia
os cabrões, porque é de
mamas à vela
que se navega

e tu dizes revolução, pois sim
pois sim, mas Deus que afinal toma
partido não tem espírito nenhum
e o poeta está em greve
de marianas azuis

então volta o anjo da azia
e a terra geme sob o peso da
gente demasiado pura
eu que tenho esta sina
enganar-me sempre de rua

vejo-te como Ofélia que de repente
começou a andar de pé
sobre os poemas elisabetinos
menos conseguidos
e tudo passa como a

Casa Havaneza e as saudades
de um século que passou sem deixar nada
a não ser sangue, palavras
e preservativos
mas hás de voltar tu que nunca voltarás

tu Lou, poème d'amour
em tempo de psiconudismo

2010-02-08

MANIF


Privilégios de Sísifo convida-o a desfrutar das suas cordas vocais ao vivo e em boa companhia: qualquer opositor do novo fantoche lusitano, o Manipulador dos Bastidores, é bemvindo. Pode ir de gravata, de fato de ganga ou nu. Não importa. Leve-se a si mesmo e exerça um poder esquecido dos portugueses: o Poder de dizer não aos Irreais que julgam que nos governam e que apenas se governam a si mesmos. Não se dêem tréguas a esta gente de duas caras, duas medidas e dois pesos.
Sejamos gente e povo. Tenhamos sempre essa nobreza, que é o que nos dá força e razão de exercê-la. Se os supremos juízes são coniventes e abafadores, fora com eles. Há alturas em que se a Justiça não funciona pelos seus órgãos próprios tem que funcionar por outros. Todos os que se pronunciam contra a presença de gente que protesta nas ruas e acham isso anti-democrático, não são democratas. A acção cívica é um direito e um dever. O tirano global não pode ser deixado a exercer a sua infinita mediocridade, e a sua tentativa de controle de tudo e todos impunemente. Estamos na rua para dizer sem temor o teu precioso nome: Liberdade!

2010-01-29

Fialho o ex-boticário


«Esta residência entre drogas estragou-me a saúde e além de outros achaques de espírito e de corpo, incutiu-me uma tendência mórbida para as letras.» E continua: «Gastei sete anos a percorrer todos os lugares-comuns dos escritores nacionais, de 1830 para cá e a matar o tédio desta leitura com romances de cadernetas, e pequenos ensaios literários de fábrica própria para jornais de província, onde a petulância das minhas asneiras me acarretou, por Leiria e Viseu, foros de escritorinho esperançoso. Minavam-me o tédio e uma ânsia de liberdade insaciável, e alcancei que me deixassem ir findar os preparatórios do liceu, findos os quais, ao matricular-me na Escola Politécnica, o falecimento de meu pai me obrigou a abandonar botica e estudos, para ir acudir ao bem estar dos meus, ameaçado terrivelmente por aquela morte que nos deixara às portas da miséria. Por lá estive um ano inteiro, e tornado no ano seguinte, por aí fora vim vindo, té terminar o curso médico. Como vivi todo este tempo? Dos recursos do pouco que minha pobre mãe podia dar-me, de alguma colaboração avulsa por dicionários e pequenas folhas literárias, e enfim de lições que fui dando à hora em que os meus condiscípulos folgavam, descuidados, felizes, bem comidos, bem vestidos, ignorando o martírio do pão ganho aos patacos, e os prodígios de energia heróica, consumida a vencer economias de cigarros e de ceias, e a desaparecer enfim de toda a parte onde o ‘sucesso tem praça’, e poderia ser notado o nosso casaco velho, o nosso cabelo crescido e as nossas botas roídas nos tacões. Vencidos os cursos científicos, em vez de seguir, como os meus condiscípulos, nas facilidades profissionais que eles fomentavam, cometi a tolice de me lançar numa vida literária, de querer viver por uma pena donde continuamente espirravam revoltas, e que fatalmente havia de me agravar as dificuldades do caminho.»3

Fialho de Almeida

Filé de Fialho





«Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato. Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes e terrível com agressores e adversários.» [...] Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato – isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque e o animal de humor e fantasia – porque não escolhermos nós o travesti do último? É o que se quadra mais ao nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.»

Fialho de Almeida

MonoPortugal


«Em Portugal há só um homem – que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir; sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto – sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. É o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos.»

Fialho de Almeida

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2010-01-01

REPÚBLICA FANTASMA QUE TEMOS


Politicamente sou agnóstico, mas parece-me que a República foi a doença senil da Monarquia.

Sabe-se como os fantasmas representam bem - melhor do que os vivos - a realidade.
Neste momento o fantasma da III República agoniza. Mas os fantasmas às vezes demoram séculos a morrer.

Seja como for é divertido assistir ao circo do samsara.

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2009-12-12

EPITÁFIO DA IGREJA CATÓLICA


D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, ganha o Prémio Pessoa.


Eis o que Pessoa, pela voz de um seu heterónimo pensava da Igreja Católica:

Charles Robert Anon

EPITAPH OF THE CATHOLIC CHURCH

EPITAPH OF THE CATHOLIC CHURCH

Friends, tread in peace, here lies the devil;

The world hath now but little evil.



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2009-12-10

Vendem-se Ladrões, já a ladrar e tudo



Um pouco de Cèline para desenferrujar a verrina:

Pequenos Ladrões

É preciso que a loucura dos massacres seja extraordinariamente imperiosa para se disporem a perdoar o roubo de uma lata de conserva! - que digo eu? - a esquecer! É bem verdade que não estamos habituados a admirar todos os dias uma imensidão de bandidos com opulência que o mundo inteiro, tal como nós, venera, e cuja existência, desde que a examinemos um pouco mais de perto, se revela um longo crime todos os dias renovado; mas essas pessoas desfrutam de glória, honras e poder, as suas perversidades são consagradas pelas leis, ao passo que, tão longe quanto pode levar-nos a História, tudo nos demonstra que um furto venial e sobretudo de alimentos mesquinhos como côdeas, presunto ou queijo, atrai infalivamente sobre o seu autor o opróbio formal, os repúdios categóricos da comunidade, as penas máximas, a desonra automática e a vergonha sem expiação, e isto por duas razões: em primeiro lugar porque o autor de tais perversidades em geral é pobre e em si próprio este estado implica uma indignidade capital, e em seguida porque o seu acto comporta uma espécie de censura tácita à comunidade. O roubo do pobre faz-se uma maliciosa recuperação do poder individual, está a compreender... Aonde iríamos parar? Por isso, repare bem, a repressão dos delitos insignificantes é exercida em todos os climas e com rigor extremo, não só como meio de defesa social mas também, e acima de tudo, como aviso severo a todos os infelizes para continuarem no seu lugar e na sua casta, mansos, resignadamente satisfeitos por morrer ao longo dos séculos, e indefinidademente, de miséria e fome... No entanto, aos pequenos ladrões até agora restava uma vantagem na República, ficarem privados da honra de usar as armas patrióticas.
[...]
Digo-vos, simplórios, vencidos da vida, escorraçados, espoliados, transpirados de sempre, previno-vos: quando os grandes deste mundo resolvem amar-vos é porque vão transformar-vos em carne para canhão... É o sinal... É infalível. É por amizade que a coisa começa. Luís XIV, esse, que nos lembremos marimbava-se por completo para o bom povo. Quanto a Luís XV, é a mesma coisa. Estava-se a cagar. Não se vivia bem nesse tempo, é certo, os pobres nunca viveram bem mas ao estripá-los não havia a teimosia e a obstinação que encontramos nos tiranos dos nossos dias. Para os pequenos, digo-lhe eu, só há descanso com o desprezo dos grandes que apenas podem pensar no povo por interesse ou sadismo... Foram os filósofos, repare ainda a propósito, que começaram por contar histórias ao bom povo. A ele, que só conhecia o catecismo! Empenharam-se, proclamaram eles, em educá-lo... Ah! Que verdades tinham a revelar-lhes! E das boas! E das fresquinhas! Que brilhavam! De se ficar embasbacado! É isto!, começou a dizer o bom povo, é isto mesmo! É precisamente isto! Vamos morrer todos por isto! Nunca quer mais do que morrer, o povo! Tal e qual. «Viva Diderot!», berraram eles, e depois: «Bravo, Voltaire!» Ao menos eram filósofos! E viva tmbém Carnot, que organiza tão bem as vitórias! E viva toda a gente! Ao menos eram gajos que não deixavam o povo morrer na ignorância e no feiticismos! Mostraram-lhe, eles, os caminhos da Liberdade! Emanciparam-no! Mas não durou! Primeiro saibam ler todos os jornais! É a salvação! Caramba! E isso rápido! Basta de analfabetos! Não pode havê-los! Apenas soldados-cidadãos! Que votem! Que leiam! E que se batam! E que marchem! E mandem beijos! Sob este regime, o bom povo acabou por chegar ao ponto certo. O entusiasmo de ter sido libertado não havia de servir para alguma coisa? Danton não era eloquente por tão pouco. Com alguns berros tão sentidos que ainda hoje se ouvem, do pé para a mão mobilizou o bom povo! Foi o ponto de partida dos primeiro batalhões de emancipados frenéticos! Dos primeiros pobres-diabos votantes e baindeirófilos que levariam Dumouriez a fazer-se esburacar na Flandres! Para o próprio Dumouriez que, chegando demasiado tarde a este pequeno jogo idealista inteiramente inédito, e acima de tudo interessado em carcanhóis, desertou. Foi o nosso último mercenário... O soldado gratuito era novidade... Uma novidade tal que Goethe, tão Goethe como era, ao chegar a Valmy ficou pasmado. Perante aqueles magotes esfarrapados e apaixonados que se davam espontanteamente a estripar pelo Rei da Prússia para defesa da inédita ficção patriótica, Goethe sentiu que ainda tinha muitas coisas a aprender. «A partir de hoje», proclamou tão magnificamente como seria de esperar do seu génio, «começa uma nova época!» Tal e qual! Em seguida, como o sistema era excelente puseram-se a fabricar heróis em série e cada vez menos caros devido ao aperfeiçoamenteo do sistema. Toda a gentes se deu bem. Bismarck, os dois Napoleões, e tanto Barrès como a Cavaleira Elsa. A religião bandeirista substituiu prontamente a celeste, velha nuvem já emurchecida pela Reforma e desde há muito condensada em pés-de-meia episcopais. Antigamente, a moda fanática era «Viva Jesus! Fogueira com os heréticos!» Raros e voluntários, porém, os heréticos... Ao passo que, de futuro, aqui onde nos vêem é com hordas imensas que os gritos: «Morte aos que não matam uma mosca! Aos pãezinhos sem sal! Aos inocentes leitores! Milhões de homens de face voltada ao perigo!», despertam vocações. Os homens que não quiserem assassinar nem deitar as mãos a ninguém, os mal cheirosos pacifistas, agarrem-nos e chacinem-nos! Que os trucidem de mil maneiras e feitios bem desarrincados! Para aprenderem, comecem por arrancar-lhes as tripas do corpo e os olhos das órbitas, e acabem-lhes com os anos de vida porca e abjecta que eles têm! Que os façam finar-se legião por legião, saltar na corda bamba, sangrar, fumegar em ácidos, e tudo para a Pártia vir a ser mais amada, mas alegre e amena! E se lá houver imundos que recusem compreender estas coisas sublimes, só há que fazê-los enterrar imediatamente junto dos outros, não digo isto à letra, claro, mas no fim do cemitério e com o desonroso epitáfio de cobardes sem ideal uma vez que perderam, estes ignóbeis, não só o mágnifico direito a um cantinho de sombra no monumento adjudicatário e comunal erigido aos mortos como deve ser, na álea central, mas também o direito de captar um pouco do eco do ministro que, nesse mesmo domingo, vai urinar à casa do prefeito e depois do almoço fazer uma berratina sobre as campas...

in Viagem ao Fim da Noite, Louis Ferdinand Cèline

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A DIVINA EXCARNAÇÃO II

Os CÉUs DOs ALENTEJOs

(The Sun Moves freedom, a Liberdade Move o Sol)

um demónio, digo eu,
um demónio azul do céu
fez este céu de três claros sóis
e um anjo inspirado pela imensidão
traçou - tão delicados! - os círculos
da divina e preciosa solidão

só mais tarde veio o lobo
rente à tarde das papoulas
em chamas. Narina de fogo frio
olhos de neve trocista
o lobo! foi ele quem fez a cal
dos montes

e enforcado em sílabas o poeta
desenhou o vermelho rubro do fim
dos horizontes. depois, vieram
todos os que não conheciam o número
e que bom que era o silêncio antigo

ah deitar-se depois do inferno
das figueiras com a moça
que era os trigais e a água!
e provar a rir as ameixas
da discórdia e da harmonia
com a pele tisnada de beijos!

então subíamos ao sete-estrelo
nós, pela voz das sibilas,
e movíamos erva nas estrelas
e a rosa negra dos mundos
e sabíamos. oh como
que deus é desejo

e o mundo está sempre a cair
estupefacto
como um fruto

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2009-12-07

Os Reis do Sião prostram-se diante de SSMMII Napoleão II e sua esposa.

FRAUDE

Se é preciso usar de fraudes piedosas com o povo?

O faquir Bambabefe encontrou um dia um dos discípulos de Cong-fu-tseu, que chamamos Confúcio, e esse discípulo chamava-se Uang; e Bambabefe sustinha que o povo tem necessidade de ser enganado, e Uang pretendia que jamais se deve enganar quem quer que seja; e eis em resumo a sua disputa.

Bambabefe
É preciso imitar o Ente Supremo, que não nos mostra as coisas tais como são; ele nos faz ver o Sol sob um diâmetro de dois ou três pés, não obstante esse astro ser um milhão de vezes maior do que a Terra; ele nos faz ver a Lua e as estrelas deitadas sobre um mesmo fundo azul, enquanto na realidade estão a distâncias diferentes; quer que uma torre quadrada nos pareça redonda de longe; quer que o fogo nos pareça quente, apesar de não ser nem frio nem quente; enfim ele nos cerca de erros convenientes a nossa natureza.
Uang
Isso a que chamais erro não o é absolutamente. O Sol, tal como está colocado a milhões de milhões de léguas além do nosso globo, não é o que vemos. Realmente, nós não percebemos, nem podia deixar de sê-lo, senão o Sol que se grava em nossa retina, sob um ângulo determinado. Nossos olhos não nos foram dados para conhecermos as grandezas e as distâncias; são precisos outros recursos e operações para conhecê-las.
Bambabefe ficou muito admirado dessas proposições. Uang, que era muito paciente, explicou-lhe a teoria da ótica; e Bambabefe, que tinha um certo tino, rendeu-se à evidência das demonstrações do discípulo de Cong-fu-tseu; em seguida reencetou a disputa nestes termos:
Bambabefe
Se Deus não nos engana quanto aos nossos sentidos, como eu pensava, deveis convir ao menos em que os médicos enganam sempre as crianças para o seu próprio bem: dizem-lhes que lhes estão dando açúcar, e na realidade trata-se de ruibarbo. Portanto, meu caro faquir, posso muito bem enganar o povo, que é tão ignorante como as crianças.
Uang
Tenho dois filhos e jamais os enganei; disse-lhes quando estiveram doentes: “Eis um remédio muito amargo, é preciso ter coragem para tomá-lo; se fosse doce vos faria mal”. Nunca admiti que suas amas e seus preceptores lhes metessem medo contando-lhes histórias de feitiçarias; é assim que os criei, como cidadãos corajosos e sábios.
Bambabefe
O povo não nasceu tão feliz como vossa família.
Uang
Todos os homens se parecem; nasceram com as mesmas disposições. Os faquires é que corrompem a natureza dos homens
Bambabefe
Ensinamos-lhes muitos erros, reconheço-o; mas é para o seu próprio bem. Fazemo-lhes crer que se não comprarem nossos cravos bentos, se não expiarem seus pecados dando-nos dinheiro, tornar-se-ão, na outra vida, cavalos de posta, cães ou lagartos: isto os intimida, e então eles se tornam pessoas de bem.
Uang
Mas não percebeis que dessa forma perverteis essa pobre gente? Existem entre o povo, mais do que se pensa, pessoas que raciocinam, que zombam de vossos cravos, de vossos milagres, de vossas superstições, que vêem muito bem que não se irão transformar nem em lagartos nem em cavalos de posta. Que acontece? Elas têm bastante bom senso para ver que vós lhes pregais uma religião impertinente, e não o têm, entretanto, suficiente para se elevar numa religião pura e isenta de superstições como é a nossa. Suas paixões lhes fazem pensar que não existe religião, uma vez que a única que lhes ensinam é ridícula; tornai-vos pois culpado de todos os vícios aos quais elas se atiram.
Bambabefe
De forma alguma, porquanto nós apenas lhes ensinamos uma boa moral.
Uang
Seríeis lapidado pelo povo se lhe ensinásseis uma moral impura. Os homens são feitos de forma tal que querem cometer o mal mas não admitem que lho preguemos. Seria simplesmente necessário não imiscuir uma sábia moral com fábulas absurdas, pois enfraqueceis com vossas imposturas, de que poderíeis vos abster, essa moral que sois forçados a ensinar.
Bambabefe
Como! Julgais que se pode ensinar a verdade ao povo sem a sustentar pelas fábulas?
Uang
Creio-o firmemente. Nossos letrados são da mesma massa que nossos alfaiates, tintureiros e camponeses. Adoram um Deus criador, remunerador e vingador Eles não contaminam o seu culto com sistemas absurdos nem cerimônias extravagantes; e há muito menos crimes entre os letrados que entre o povo. Por que não nos dignarmos instruir nossos operários como instruímos nossos letrados?
Bambabefe
Cometeríeis uma grande tolice; é como se pretendêsseis que eles tivessem a mesma polidez, que fossem jurisconsultos: isso não é possível nem conveniente. É preciso que exista pão branco para os amos e pão negro para os domésticos.
Uang
Reconheço que nem todos os homens devam ter os mesmos conhecimentos; mas há coisas necessárias a todos. É necessário que cada um seja justo, e a maneira mais segura de inspirar a justiça a todos os homens é inspirar-lhes a religião sem superstição.
Bambabefe
É um belo projeto, mas impraticável. Julgais que seja suficiente aos homens acreditar num Deus que puna e recompense? Vós me dissestes acontecer freqüentemente que os mais avisados entre o povo se revoltam contra minhas fábulas; da mesma forma se revoltarão contra vossa verdade. Dirão: Quem me pode assegurar que um Deus pune a recompensa? Onde está a prova? Que missão tendes? Que milagre fizestes para que eu vos creia? Eles zombarão de vós muito mais do que de mim
Uang
Eis o vosso erro. Imaginais que hão de sacudir o jugo de uma idéia honesta, verossímil, útil a toda gente, uma idéia que está em perfeito acordo com a razão humana, por que se rejeitam as coisas indecorosas, absurdas, inúteis, nocivas, que fazem fremir o bom senso.
O povo está sempre muito disposto a crer nos magistrados: quando seus magistrados não lhe propõem senão uma crença razoável, aceita-a de boa vontade; essa idéia é muito natural para ser combatida. Não é necessário dizer precisamente como é que Deus punirá e recompensará; basta que se creia em sua justiça. Asseguro vos que vi cidades inteiras que não tinham outro dogma, e são também aquelas onde mais encontrei a virtude.
Bambabefe
Tomai tento; encontrareis nessas cidades filósofos que vos negarão tanto as penas como as recompenses.
Uang
Deveríeis dizer que tais filósofos negariam ainda com maior vigor vossas invenções; assim nada lucrais nesse ponto. Quando mesmo existissem filósofos que não estivessem em acordo com meus princípios, não deixariam de ser pessoas de bem; não deixariam de cultivar a virtude, que deverá ser abraçada por amor, e não por medo. Mas afirmo-vos que filósofo algum jamais estará plenamente certo de que a Providência não reserve castigos aos maus e recompensas aos bons; porque se eles me perguntarem quem me disse que Deus pune, eu lhes perguntarei quem lhes disse que Deus não pune. Enfim, asseguro-vos que os filósofos me auxiliarão, longe de me contradizerem. Quereis ser filósofo?
Bambabefe
Com todo gesto; não o digais porém aos faquires.


Voltaire


Durante uns tempos vamos dar a palavra a Voltaire que queria "morrer a rir." E que viveu pondo à prova tudo o que lia e ouvia. Mas adelante, cá vamos:

De alguns passos singulares desse profeta e de alguns hábitos antigos


Sabe-se hoje muito bem que não se devem julgar os costumes antigos pelos modernos. Quem desejasse reformar a corte de Alcinos, na Odisséia, tomando como modelo a do grão turco ou a de Luís XIV, não seria bem recebido pelos sábios. Quem reprovasse a Virgílio o haver representado o rei Evandro coberto com uma pele de urso e acompanhado de dois cães para receber os embaixadores, seria um mau crítico.
Os costumes dos judeus de antanho são ainda mais diferentes dos nossos que aqueles do rei Alcinos, de Nausica, de sua filha e do bonacheirão Evandro.
Ezequiel, escravo dos caldeus, teve uma visão perto do ribeirão de Cobar, que se perde no Eufrates.
Não nos devemos admirar de que ele tenha visto animais de quatro faces e quatro asas, com pés de bezerro, nem das rodas que caminhavam por si mesmas e continham o espírito da vida: esses símbolos até agradam à imaginação. Mas vários críticos se revoltaram contra a ordem que lhe deu o Senhor de comer durante trezentos e noventa dias, pão de cevada, de frumento e de milho, coberto de excremento.
— Irra! – exclamou o profeta. – Minh’alma até hoje não tinha sido poluída.
Respondeu-lhe o Senhor:
— Pois bem, eu te darei estrume de boi em lugar de excrementos humanos, e tu comerás teu pão com esse estrume.
Visto não ser absolutamente de uso comer tais confeitos com o pão, a maioria dos homens acha essas ordens indignas da majestade divina. Entretanto, deve-se lembrar que o estrume de vaca e os diamantes do grão mogol são perfeitamente iguais, não só ante os olhos de um ser divino mas também aos do verdadeiro filósofo. Com respeito às razões que Deus poderia ter para impor ao profeta um tal almoço, não nos cabe procurá-las. Basta fazer ver que essas ordens, que nos parecem estranhas, não se afiguraram tais aos judeus.
É verdade que a sinagoga não permitia, no tempo de S. Jerônimo, a leitura de Ezequiel antes da idade de trinta anos. Mas isso porque no capítulo 18 ele diz que os filhos não arcarão com a iniqüidade dos pais e que já não se dirá: os pais comeram raízes verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados.
Nesse ponto ele se achava em contradição com Moisés, que no capítulo 28 dos Números afirma que os filhos sofrem a iniqüidade dos pais até terceira e quarta geração.
Ezequiel, no capítulo 20, faz ainda dizer ao Senhor ter ele dado aos judeus preceitos que não são bons. Eis por que a sinagoga interdisse aos jovens uma leitura que poderia pôr em dúvida a irrefragabilidade das leis de Moisés.
Aos censores de nossos dias, ainda mais os surpreende o capítulo 26 de Ezequiel: eis como o profeta se arranja para fazer conhecer os crimes de Jerusalém. Ele apresenta o Senhor dizendo a uma moça:
“Quando nascestes, ainda não vos tinham cortado o cordão umbilical, ainda não éreis batizada, estáveis completamente nua, eu me apiedei de vós; depois crescestes, vosso seio se formou, vossas axilas cobriram-se de veios; eu passei, eu vos vi, eu compreendi que era o tempo dos amantes; eu cobri vossa ignomínia; estendi por sobre vós o meu manto; viestes a mim; eu vos lavei, perfumei, vesti bem e bem aqueci; dei-vos um chale de lã, braceletes, um colar; eu vos pus jóias no nariz, brincos nas orelhas e uma coroa na fronte, etc.
“Então, confiando em vossa beleza, fornicastes por vossa conta com todos os passantes... E trilhastes um mau caminho... e vos prostituístes até nas praças públicas e abristes as pernas a todos os passantes... e vos deitastes com os egípcios... e enfim pagastes amantes e lhes fizestes presentes a fim de que se deleitassem com outras moças. O provérbio é: Tal mãe, tal filha; e é isso que se diz de vós, etc.”
Ainda com maior indignação se insurgem contra o capítulo 28. Uma mãe tinha duas filhas que perderam muito cedo a virgindade; a maior chamava-se Oola e a menor Ooliba. “...Oola era louca pelos jovens senhores, magistrados, cavaleiros; deitou-se com egípcios desde a mais tenra mocidade... Ooliba, sua irmã, fornicou mais ainda com oficiais, magistrados e cavaleiros bem parecidos; descobriu sua vergonha e multiplicou suas fornicações. Procurou com arrebatamento os abraços daqueles cujo membro se parece com o de um asno e que expandem a sua semente como cavalos...”
Essas descrições que escandalizam tantos espíritos fracos não significam, entretanto, senão as iniqüidades de Jerusalém e de Samaria; as expressões que nos parecem livres não o eram então. A mesma franqueza aparece sem receio em mais de um ponto das Escrituras. Fala-se freqüentemente em abrir a vulva. Os termos de que elas se servem para explicar o contato de Booz com Rute, de Judas com sua nora, não são desonestos em hebreu, mas se-lo-iam em nossa língua.
Não se usa véu quando não se tem vergonha de sua nudez. Como é possível que se ruborizasse uma pessoa nos tempos passados ao ouvir falar dos órgãos genitais, quando era costume tocá-los àqueles a quem se fazia alguma promessa? Era um sinal de respeito, um símbolo de fidelidade, como outrora entre nós punham os senhores feudais suas mãos entre as dos seus senhores soberanos.
Traduzimos os testículos por coxa. Eliezer pousa a mão sobre a, coxa de Abraão; José pousa a mão sobre a coxa de Jacó. Esse costume era antiqüissimo no Egito. Os egípcios estavam tão longe de ligar à ignomínia coisas que nós não ousamos nem descobrir nem nomear, que conduziam em procissão uma grande figura do membro viril chamada phallum, para agradecer aos deuses a bondade demonstrada em fazer servir esse membro à propagação do gênero humano.
Todos esses fatos provam bem que nossos decoros não são os mesmos dos outros povos. Em que tempo houve entre os romanos maior polidez do que no século de Augusto? Entretanto, Horácio não tergiversou em dizer numa peça moral:
Nec vereor ne, dum futuo, vir rure recurrat(29).
Um homem que entre nós pronunciasse a palavra correspondente a futuo seria considerado um bêbado indecente; essa e várias outras palavras de que se servem Horácio e outros autores nos parecem ainda mais indecorosas do que as expressões de Ezequiel. Desfaçamo-nos de nossos preconceitos quando lermos autores antigos ou quando viajarmos por nações longínquas. A natureza é a mesma em toda parte e os costumes em toda parte diferentes.


Voltaire