/* PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して - 風想像力: MEDIEVAL DIGITAL

PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して - 風想像力

LES PRIVILÉGES DE SISYPHE - SISYPHUS'PRIVILEGES - LOS PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO - 風想像力 CONTRA CONTRE AGAINST MODERNISM Gegen Modernität CONTRA LA MODERNITÁ E FALSO CAVIARE SAIAM DA AUTOESTRADA FLY WITH WHOMEVER YOU CAN SORTEZ DE LA QUEUE Contra Tudo : De la Musique Avant Toute Chose: le Retour de la Poèsie comme Seule Connaissance ou La Solitude Extréme du Dandy Ibérique - Ensaios de uma Altermodernidade すべてに対して

2007-11-06

MEDIEVAL DIGITAL

A minha avó quando começou a babar-se, chamou as criadas, e disse-lhes: "Isto são fios desta geringonça quebrada. Tenho aranhas cá dentro."
Elas protestaram. "Mas Senhora Dona Constança, aranhas?"
"E das grossas, daqueles com pêlos na carapaça e pior ainda, com pêlos na mente."
As criadas olharam-na de soslaio. Teria bebido, a descendente de quinze Morgadas?
Ela repetiu com aquela convicção das meninas cristalinas:
"E até com pêlos na inteligência."
E depois de uma pausa disse: "Agora tragam-me lenços. Os de cambraia, que eram da minha bisavó, e estão na primeira gaveta da cómoda Dom João V, a do corredor, a seguir ao escritório do Senhor Doutor."
Foram a correr, duas das criadas, a Conceição e a Maria, e voltaram em êxtase, dizendo em voz cantante: "Ah que rico cheirinho."
"Alfazema, do Monte" disse a minha avó,.
Depois olhou para fora com ar sonhador. Pela janela que dava para o pátio via-se o jacarandá em flor, plantado pela sua bisavó, Dona Vicência Silvina Escórcio de Mendonça.
A seguir pegou nos lenços e acariciou-os. Tinham renda de roda. Pássaros minúsculos entrelaçavam-se a palmeiras minúsculas.
"Já ninguém faz disto," disse e ergueu um lenço no ar.
As criadas admiraram-no. Quase boquiabertas e com vontade de bater palmas de admiração. Uma delas toda vermelha disse: "A minha avó que era de São Roque era uma grande bordadeira. Ela fazia isto e ainda mais."
"Pois é, em São Roque havia grandes bordadeiras," replicou a minha avó. "Havia uma que era a Balbina Arrais, a quem chamavam a Muda, filha de uma união muito desigual, entre um pescador, chamado António Dias, e uma Arrais de Mendonça. Como ela não podia falar, contava histórias com os bordados. Parecia a Rainha Matilde a mulher do rei inglês Guilherme, o Normando, que se entretinha tanto a fazer tapeçarias que já não sabia se estas eram mais reais do que a vida ou se a vida era mais real do que elas."
Parou outra vez e ao de leve com o lenço limpou baba da boca. "Isto é que são aranhas que fiam muito. Desfazem-se todas em fios. Devo ter fios e fios cá dentro. Quem me dera que fossem fios de palavras e coisas assim."
Depois retomou a sua história. "Um dia a Balbina Arrais apaixonou-se por um adelo. Sabem o que é um adelo?"
Depois de um silêncio ela prosseguiu: "Pois eram esses homens que andavam de terra em terra, sempre a pé, pelas levadas e outros caminhos muito mais bravos e perigosos, carregados de fazenda, de botões, de tachos, de fósforos, e todo o tipo de apetrechos para acasa. Chegavam a levar fiadas de baldes, e pquenas talhas às costas. Aquilo tilintava que parecia gado."
Depois doutra pausa em que acariciou de novo o lenço depois de limpar a boca, retomou a história.
" O adelo chamava-se Joaquim, tinha cá uns olhos azuis, de príncipe! e uma pele tão tostada, de vilão. Não tinha veias azuis, corria-lhe um sangue escuro e turvo. Mas os olhos! Lançavam lume. Tanto assim que era conhecido como o Joaquim Ferreira LUME. Ela era dos Ferreira Gramaxos que já tinham tido morgadios e muita terra, mas agora tinham decaído muito e andavam na roda do povo, ou quase. Bem, a Balbina ao ver aquele homem perdeu-se de amores. Passava as noites em claro. Ia ver o mar quando fazia luar. Parava de bordar e suspirava tão fundo que as irmãs andavam num alvoroço. Ela dantes tão meiga, tão certinha, sempre a bordar sem um ai, agora dava-lhe para aqueles pequenos desatinos e sonhações. E ficou como as boas heroínas de amor cada vez mais pálida, a dar suspiros e ais, embarricada num desnorte, a soltar sangue pelo nariz, com desmaios e desatenções, enfim, um pagode!".
As criadas bebiam-lhe as palavras. Duas delas estavam apaixonadas por dois filhos doutros adelos. Aquilo parecia a voz de Deus a explicar-lhe os efeitos dos homens sobre as mulheres.
A minha avó continuou (eu estava no sofá com um livro da Condessa de Ségur ao colo)
"O que anda a ler o Miguel?"
"Coisas francesas," disse a Conceição.
"Mas é preciso cuidado porque a biblioteca do Sr. Doutor tem de tudo. Tanto lá param os filósofos libertinos como as coplas ingénuas e patrióticas do Correia de Oliveira."
"Minha senhora ele está a ler As Mesaventuras de Sofia."
"Mesaventuras," criatura de Deus?
"Ou coisa no género," baluciou a criada, envergonhada por lhe ter saído aquela palavra trapalhona.
"Tem gravuras o livro?"
Conceiçao disse-lhe baixinho ao ouvido: "Não tem mulheres nuas nem outras desvergonhas."
"Eu sei. Eu sei," disse a minha avó. "É da Condessa de Ségur." E depois disse baixinho:
"Uma tonta."
A seguir recomeçou a história: "Ah! a Balbina então depois de esperar uns três meses, que era o que o homem, o adelo, levava a dar a volta à ilha..."
"Dava a volta a toda a ilha?"
"A toda! galgava montes que nem um cabrito, com aquele peso todo às costas. Dormia onde calhava. Se calhava estar no alto da monatnha e já estava escuro demais para ver o caminho, dormia nuns penhascos,. Ele era da raça dos pés de casco."
"Pés de quê?", minha senhora.
"De casco, rapariga! De homem com fibra de bode, ou se quiseres, para ser mais erudita, com pés de fauno."
"Aaaah! disseram em coro as raparigas sem perceber mas pensando que fauno parecia palavra feia como f..."
Então, retomou a minha avó, obrigada a interrupções pedagógicas para o povo: "Ele um dia lá estava outra vez. De pele ainda mais tostada, tão carregado de latas, que parecia um soldado antigo de armadura reluzente. Ao peito trazia frigideiras de cobre. A luz dava nelas, não sei o que a Balbina viu, mas o certo é que começou a bordar lenços onde se via S. Miguel a cravar uma lança no Dragão. Eram uns lenços extraordinários. O Padre Rodrigues Camacho, de São Roque, quis que ela lhe bordasse um motivo igual para a sua dalmata, para o dia do Senhor São Miguel Arcanjo. E ela dissse que sim, que lhos fazia, mas com uma condição."
A minha avó que tinha a arte dos contadores de histórias fez outra pausa retórica. Levantou as mãos ao ar e desenhou umas montanhas.
As criadas perguntaram ansiosas, a ferver de curiosidade:
"Ahn ? o quê, minha senhora?"
A Balbina queria que a levassem ao alto do monte, de cadeirinha. Era a primeira vez na vida que fazia tal requisição. Do lado Dias, do pai dela, eram pescadores há gerações. Uma gentinha de Câmara de Lobos em que corria cinquenta por cento de água do mar e cinquenta por cento de poncha há gerações, e que também há gerações eram feios e mal servidos de corpo, com uns olhos turvos, de quadro de Hieronimus Bosch, que é um belga que está no museu das Janelas Verdes, na capital, em Lisboa. Também de tanto pescar peixe tinham cára de peixe," explicou a minha avó.
"Por isso," continuou, "embora os Arrais tivessem sido fina gente, e fidalga, com meninas loiras, e ainda senhoras com chapéus de plumas e anéis de armas esquarterlados em Arrais e Mendonça, há muito que não tinham coisas de fidalguia, nem sobretudo, posses para isso, que essa de pedir que a levassem de cadeirinha causou imensa estranheza. mas como ela entretanto já bordara outros lenços em que se via a Nau São Gabriel a ser levada nos ares por uma mão donde caíam flores, enquanto os golfinhos resfolegavam, e das suas emissões de água saíam rosinhas mais lindas que as do Dr. Albuquerque Pai, cederam ao seu pedido."
A minha avó sacudiu o lenço no ar, como se estivesse a chamar gente. Mas continuou.
"Assim, um dia, ela lá partiu de caderinha, levada por dois vilões, o Zé Caixa, e o Zé da Malina, até ao alto da monte. Uma vez lá em cima, como uma monja antiga, que tivesse feito votos de silêncio explicou-lhes por gestos para só voltarem daí a uma semana. E eles, aflitos, perguntaram e que vai comer a menina?"
"Ela girou os braços à roda e apontou para o Sol a dizer que era a luz do Sol que ela ia comer. Eles olharam um para o outro, certamente - isto digo eu -" frisou a minha avó, sempre precisa" e devem ter pensado: olha! mais uma gaforinada, uma doida, que parece a irmã Francisca dos Mártires que se fechou sozinha num silo durante dois anos seguidos, até que correu voz que à sua roda brotavam milgares por todo o povoado, e se dizia que ela estava rodeada de luz e da cabeça lhe saíam pétalas de rosa. Mas que nada pusera feno na cabeça para não sentir frio, e acendera uma vela para afastar o demónio... e o ínico milagre que houve foi uma vaca que pariu um bezerro com duas cabeças" mas isso são outras histórias. Enfim, os homens lá voltaram sem ela, e explicaram que a Balbina estava doida, e que quisera ficar lá em cima, no alto do monte, à desabrigada e tudo. Um deles ainda lhe quisera deixar uma jaqueta, que ela tomou e cheirou, mas depois franziu o nariz a dizer que cheirava mal. De modo que lá ficou só com a roupinha que levava, sózinha, naqueles grandes frios e solidões lá do alto."
Mais uma vez a minha avó limpou os lábios e disse- São mesmo fios de aranha. E baixinho sussurrou tonrnei-me numa teia interior, estpi cheia de palavras que se cruzam por todos os lados com os montes e os bichos." mas depois continuou:
"Mas como a Balbina devido à beleza e ao mistério daqueles lenços já se impusera ao respeito, as irmãs embora estranhando muito, não tiveram remédio senão respeitar a sua decisão.
E assim ficou ela lá em cima do monte toda uma semana, num lugar frio e ermo como os promontórios de Hades que nem as cabra selvagens alcançavam, e onde se dizia que havia serpes, lésmias, bazuntos, molipantos e outros bichos maus."
"Hades é o rio por onde se passa antes de chegar ao inferno, explicou a minha avó. E onde os de fraca memória a perdem para sempre"
As criadas estremeceram.
"E passados sete dias, lá foram de volta os dois Zés, mais a caderinha. E ao vê-la ficaram surpreendidos. Durante essa semana Balbina bordara um lenço de um tamanho enorme que cobria todo o lado da monte que dava para o mar. Estava lá bordada toda a história da ilha, desde o desembarque de Sir John Drummond, meio morto de fome, e ainda com uma ponta de flecha cravada no pulso, e amarrado ao pescoço uns fiapos de um lenço que fora de Joana d'Arc."
Depois a minha avó, tossiu, limpui a boca com o lenço e explicou que Joana d'Arc "Foi uma que os ingleses queimaram na fogueira como bruxa, porque via anjos e era generala dos franceses no tempo mais antigo ainda do que a ilha toda. E que o tal Sir John Drummond era um cavaleiro andante, das Terras de Escócia que partira para França combater ao lado do Delfim.
As criadas perceberam ao lado do golfinho. Mas não ousaram perguntar nada.
E a minha avó continuou: "Eu agora que estou velha de deitar fora..."
"Que ideia minha senhora!"
"Já não presto para nada a não ser para servir de memória."
"Ora essa?"
"E para isso já tem vocês computadores de modo que..."
Erguendo-se comandou com aquele tom indiscutível de quem traz no sangue quinze gerações de morgadas: "Tragam-me a cadeirinha e levem-me para o alto do monte!"
"Oh minha senhora, pela sua alma? E o netinho? que vai ser dele?"
"Fica a ler aquelas baboseiras da Ségur até tomar juízo!" Depois disse: " Vamos lá, deixem-se de fitas e que eu não nunca fui cá de ouvir lamúrias e disparates desses. Chamem os homens, porque clamar pelos anjos é bonito, mas sempre escusado."

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