/* PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して - 風想像力: A MAÇÃ INTERIOR

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2007-10-27

A MAÇÃ INTERIOR


escrevo para me desenganar de mim mesmo



A mulher elegante e caçadora que antigamente matara perdizes queria escrever um conto sobre a sua vida interior. Foi viver para uma tenda no deserto, depois para um Castelo nos Cárpatos (quando ainda se alugavam castelos inteiros, baratos). Aterrada, descobriu que não tinha vida interior nenhuma, que ela era sempre outra, uma mulher adorável de quem toda a gente gostava, mas que ela detestava. Eu não sou exactamente essa mulher, essa mentira de que todos gostam, e que eu cultivo com alguma distraída inquietação, pensou, sem saber o que fazer.
Então, um dia começou a escrever uma história para crianças, mas na sua mente só via cabeças de cavalos decepadas, a boiar pelas autoestradas. Começou a pensar angustiada que, se os seus sonhos se pudessem tornar realidade, coisa que ela realmente temia que pudesse suceder, então o pesadelo diário, caso os seus pesadelos fossem eficazes, podia ser ainda pior. Descobriu, igualmente, que não sabia o que era uma criança, precisamente porque nunca tinha sido uma ou talvez porque fora demasiadamente criança e se perdera para sempre num tempo eterno e hermético, não sabia bem. O certo é que tinha sido, logo à nascença, uma mulher bonita e adorada, e por isso, estava a mais nas coisas, transbordava da realidade para fora.
Para poder sentir-se fora dessa terra tão familiar, p
agou bom dinheiro para ser insultada, mas sucede que com a vileza geral dos tempos também tinha decaído, e muito, a arte da injúria. Tal como não sabiam louvar, as pessoas também tinham deixado de saber vilipendiar. Nem sequer as maldições extremas funcionavam, porque era uma era sem profundidade tanto do mal como do bem. Então soube que tinha de escrever um pequeno poema chamado a Maçã Interior. Custou-lhe imenso saber que essa voz interior que ela julgava sua, não era dela. Era de alguém outro, diferente, ou de um mistério dela, que ela perdera.
Por isso o seu conto esgotou-se todo no título. Mas as pessoas ficavam arrepiadas só com o título, como se ela tivesse condensado todas as figuras de uma vida surpreendente em apenas duas palavras. Todos, desvanecidos, a felicitavam pela justeza e pela profundidade daquele conto que começava e acabava num tão breve título. Só ela sabia que aquele título não tinha realidade, tal como ela.
A partir de então quis dedicar-se a observar os reflexos das nuvens nos grandes lagos, mas com muita e frequente pena sua descobriu que os seus olhos se alagavam de lágrimas tão leves que as coisas desapareciam do mundo, e em lugar dos seres ficavam manchas esparsas de névoa.


Desenho do século XVIII de um Dodo, espécie extinta pelo homem nesse século

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Adorei este teu continho. Você está publicado no Brasil?

Um abraço,

Neusa Palladini

12:00 da tarde  
Blogger Miguel Drummond de Castro said...

Obrigado Neusa,

Não, não estou. Mas um dia?

Um abraço,

Miguel

6:39 da tarde  

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