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2007-02-10

TRESMALHAMENTO DE QUADRADOS

Sempre que entro no talho na parede atrás do balcão vejo uma vaca como esta, e que tal como esta parece o mapa dos EUA.
Contra toda a aparência é uma vaca escolar, pedagógica, completamente abstracta mas que representa o Espírito da Era. Está parcelada em diferentes estados...de carne. Representa o espírito geométrico e pragmático em todo o seu esplendor, o de "cada coisa no seu lugar", de "pontos nos is". Deve ter sido desenhada por um concentrado de Conselho Escolar, pela quintessência de Dez Ministras da Educação. A pobre vaca não tem nada de vida, está ali esquadrinhada, tal como vai ser esquartejada. É uma lição de economia - aproveitamento integral. À vaca só não se lhe comem os cornos.
Cada vez que a vejo não posso deixar de a considerar como o Espírito Quadrado, como a encarnação perfeita do Pensamento Caixinha, como a Matriz Arrumadora. Quando se começa a fazer o Lavado de Cérebro às criancinhas para que saibam formar bichas esta vaquinha, que se pode dispor em cubos, formando encantador puzzle, é injectada em cada cabeça.

Esta vaca foi desenhada por uma cabala benévola que inclui um conjunto de pedagogos, daqueles que aparecem com "grelhas", com quadradinhos, e cuja visão do paraíso na terra consiste em ter tudo arrumado dentro de "casinhas", depois de ter distribuído bonés de pála, já virados ao avesso, e outro de militares, casernários, disciplinarianos, que ao mesmo tempo que gostam de usar uniforme, gostam de uniformizar as coisas, de geometrizá-las, de aplicar linhas rectas à matéria. O Boulevard Haussman em Paris, e todas as cidades americanas, com o seus bairros quadrados, foram concebidos pelo matricial Pensamento Vaca, cujo glorioso postulado: Tudo pode ser dividido em talhões, foi imposto à barbárie errática.

Esta Vaca, por outro lado representa a Ordem. Aqui a Natureza, ameaçadora, está controlada, dominada, exibida em talhões que se transformarão em fatias e nacos, de inofensivo aspecto - já longe do tumulto das vísceras, do borbulhar do sangue, da combustão das hormonas. Este inocente esquema da Vaca pacifica e pasteuriza. Fica-se a saber que a Vaca pode ser, sem sangue à vista, sem cenas ofensivas âs criancinhas, crucificada na parede, sem que proteste, sem que manifeste o menor sinal de vida. Ela até gostou de ser geometrizada, sente-se útil como uma escuteira- Este oxímoron de Vaca zela pela moralidade pública.
Mas imagine-se uma aferese inesperada, uma distonia da percepção, a mais improvável e indesejada ressurreição: a Vaca a sair do quadro, gulosa do sangue das autoridades. A Vaca tornada carnívora. Um " Boeuf sur le Toit" tornado ainda mais insólito, uma Vaca que se arrancou à grelha, que sai do parking, que é ameaçadora e que vai começar o seu Diaes Irae com a maior simplicidade do mundo: devorando os pensadores Caixinha?


NOTA_ Talhões, talho. Repare-se na nada inocente homologia estrutural. Que leva a que a sociedade esteja estruturada como um talho e este como a sociedade. E justifica o nome dalguns filmes como Le Grand Abbatoir. Ou como Fialho lhe chamaria, o Açougue. Que tal saber que se vive sempre ou dentro ou nas extensões do Pensamento Talho? Que a Ordem é uma aplicação prática do talho, da moral do Matadouro? Que o Urbanismo actual com a sua noção do talhão, se juntou à Vaca? Em suma, um Pensamento Vaca percorre a sociedade, informa-a, e o que é pior estrutura-a de alto a baixo - em talhões, no sentido literal e translato.





1 Comments:

Anonymous António Botelho Mendes de Vasconcelos said...

Caro Drummond,

Este seu texto não deixa nada em pé, mas é luminoso. Será que a lucidez total nos atira para o Outro lado da Lua?
Ao mesmo tempo confesso: sou carnívoro. Terei, hélâs, que me socorrer do talho. À uma porque já não há caça digna desse nome em Portugal, segundo porque não gosto de peixe.
Mas acho que sim, esa sua definição da Sociedade como um Talho Gigante convenceu~me. Cortam-nos às postas sem dúvida.
Para mim, as contas do fim do mês, as Horrorosas Contas do Fim do Mês e os Altíssimos Impostos que pagamos além das Taxas Altas que os Bancos não perdem uma oportunidade de nos comer, são outras tantas facas do Talho Total que o meu caro amigo com a sua prosa devastadora e cheia de um caústico humor tão bem descreve.

Um, abraço, e força no seu blog que tem vindo a pôr-me novos problemas...a re-equacionar a minha visão do mundo.


António Botelho de Vasconcelos

11:53 da tarde  

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