/* PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して - 風想像力: LISBOA REVISITADA

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2008-09-17

LISBOA REVISITADA



Em Portugal onde tudo é rasca, Lisboa é uma anomalia: rasquíssima, sórdida, suja, despintada, com carecas dos três sexos e de todas as idades, inúmeros barrigudos e bairros modernos decrépitos, em que o cimento abre racha ao terceiro dia, no entanto, de muitos pontos da cidade, mancha de muitos sinais, avista-se o rio.

O mísero, o grande Tejo entra pela cidade de todas as maneiras que pode. Às vezes, está entre um anúncio luminoso e uma roupa pendurada, toda amarrotada, outras mói uma das últimas bugainvílias ( quem terá plantado as bugainvílias em Lisboa: um secreto exército, de cara púrpura, uns anjos degradados e empoeirados?).

Entretanto, ninguém pára o rio. O seu papel é correr, furar, insinuar-se, tornar-se oblíquo, rasar, rasurar. Deve ser ele que escreve os nossos BIs, todos aldrabados, com a altura errada, uma cara de afogado, uma assinatura engomada e perfumada, esticada, a fazer-se importante, dado que não há gente nenhuma num BI, apenas água suja e vitoriosa, fermentada a barbatana.

As pedras da calçada - em tantos pontos desconexas, arrancadas, usadas para telegrafias estranhas, no fundo estão sempre em movimento. São uma teia, uma rede, uma net fabulosa sem o idiota do Sapo (que é uma rã porque os yuppies pálidos da tecnologia confundem uma mosca com um áptero, um mosquito com uma aranha, e uma rã com um sapo) que apanha as pessoas pelas solas.

Um Lisboeta no fundo o que é? Uma pessoa apanhada pelos interstícios da calçada. Não há saída, não há lápide, emblema, credo ou raça, ideologia ou coçeira, religião ou qualquer bufa semelhante, conta no banco, férias num resort exclusivo que o safem. As sinuosidades, os desvios, o espírito do labirinto insinuou-se pela planta dos pés. O ar pálido das fadistas doentias? puro calcário, pisaram muito a calçada. As promessas vãs dos políticos, o seu triunfalismo bacoco: pura pedra, pura calçada. E os que-andam-sempre-de-automóvel são cárie pura, sombras do Hades, já vogam como medusas astrais e assassinadas atrás e adiante dos anúncios apagados a cuspo.

E isso está certo com as fachadas a cair em vida, os vidros a desabar, o cheiro fortíssimo a metro combinado com peixe frito e sardinha assada. Mesmo o cheiro nauseoso das pizza houses, das hamburguer's houses, das sanduicherias anglo-coisas, dos McDonald e de todo o género de restaurantes back street que oferecem a turistas míseros fotografias tricoloridas de pratos que cheiram a plasticina, acaba por se combinar com o alecrim.

Nunca cheira bem, mas cheira sempre a Lisboa, a vasa do rio, a um lodo indeciso e antiquíssimo, a fenício desidratado, a judeu transviado. Há muito mais facas na liga no ar do que parece, as facas moles deste povo de hábitos e costumes pálidos que bate com a olheira nas coisas, que tem os burgueses mais tias do mundo, e os polícias mais sonâmbulos da Ibéria, que andam devagar e ralham devagar, e multam devagar, como se fossem o Jacques Brel da Valse à Douze Temps de 45 rotações passado a 33.

Os semáforos são luzes de natal. As luzes de Natal são semáforos. O rio dilui os signos fortes, contradiz as antinomias, liquefaz contradições. Julgar que se é independente do rio? Pois é uma cidade de mui graves e grandes fingimentos. Passa-se a vida a fingir que não somos destino daquelas águas, matéria daquele caldo primitivo. Mas em vão se passa o mais acanhado possível, de um para outro lado, de ponte, de barco, de automóvel, a assobiar para o lado, pretendendo que nada daquilo é connosco.

1 Comments:

Anonymous Pedro Cortês said...

Lisboa é uma favela para afogados em vida. Tem arranha-céus favela,mas sem negros, coloured ou o tipo informe e misto de mestiço internacional. Os bairros populares são afogamentos in progress há séculos. O Destino da cidade é irreversível: afundar-se de vez no rio, como as cidades do Italo Calvino.
E se calhar já esta debaixo de água há que séculos e somos todos hidro-cidadãos esquecidos.

Belo texto Drumas, o seu! e tão justo que me inspirou estas pálidas considerações

11:29 da manhã  

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