/* PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して - 風想像力: elogio dos subúrbios de Lisboa

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2006-11-21

elogio dos subúrbios de Lisboa

No fundo os subúrbios são uma muralha, e as muralhas são excelentes para proteger de incursões dos bárbaros. Sim: são toscos, são pingo, são catita e vidro muito e habita neles um não ser gente, mas eu hoje por puro capricho vago, elogio-os. E até acho pelo menos ad usum poema que lhes fica bem uma certa aparência de cenário-drama-estatelamento, de grande parasol sem remédio, mas que amontoa muito.
Toda a gente que ama Lisboa e conhece Paris por lá ter vivido, sabe que se Paris é o centro do mundo, Lisboa é o centro do Universo. Por isso dá gosto protegê-la, mantê-la em óptimo estado, com todos os sinais vitais a dar sinais de vida. A cor maioritária cinza dos prédios de Paris acaba por não ser monótona, o cinzento permite trocadilhos de cor, permutações secretas com o nevoeiro, e um certo discreto brilho, que atrasa os trabalhos satânicos de ter que haver só luz amarela da autarquia a flutuar com as suas bandeiras, anuladoras do vivo brilho da bela escuridão, arrasadoras por todo o lado. Entretanto em Paris S'íl fait beau, je sors. S'il pleut je sors aussi et j'avance tout mouillé. Em Lisboa, não . Se chove fico, eternizo-me, fico a ver a chuva andar. Com que requinte tecemos teorias extraordinárias sobre a perigosidade do espirro e a o grau desnorteante da catalepsia que as chuvas induzem. Só a possibilidade de ficar molhado tem levado gerações inteiras a fechar-se em casa, num etérico recolhimento, esperando séculos pelo romper de uma Alba incerta e fugidia, que talvez já tenha vindo. Mas tudo isso dá um certo e invisível fogo a esse sentimento perfumado de nostalgia, a esse comprazimento em recuar, em recolher, em construir o pátio mais perfeito para flores de ninguém longe da multidão, mas contando com ela, porque não se deixa em Lisboa nunca de ser solidário. E só é um aristocrata quem conheceu por inteiro todo o povo. Paris é a cidade mais acolhedora para as chuvas e mais generosa para com o Outono de todo o planeta. A quem as cores do Outono de Paris fizeram Vidente de vez, sabe como aquele explode com a sua lentidão de sultão das nuances, e todas as folhas dos áceres, dos carvalhos, das olaias organizam os seus corpos de dança junto de estátuas de faunos, de sombras de centauros, todo um paganismo sacro, mais antigo do que os santos e mais longo do que os deuses, exala-se de muita parede de pedra, e de muito passeio construído com lajes imensas para que a pedra fosse espelho dos céus nublosos ou coloridos pelo Édito do sangue de Nantes. Em Lisboa é na madeira, mas em Paris escreve-se tudo na pedra. Liberté escrita no alto dos prédios, para que ninguém esqueça que é palavra alta e que se lembre de andar sempre de cabeça levantada, ladeado pelo mercúrio daqueles prédios que se combinam e dissolvem uns nos outros, e fazem saltar nos ares os personagens flamígeros ou errantes, os cães azuis, os acordeões perdidos que tocam só no fundo do rio e dos dias , enquanto por todo o lado, rubro, esplêndido como uma fuga de cisnes de batalha, se vê o maciço de túlipas de madame Pompadour, compradas a preço de ouro a prebostes, van Rijns com dente de ouro. Mas Lisboa lava-se de primaveras e de azulejos, que se re-espelham pela calçada e se prolongam pelas almas adentro, com a velocidade calma das coisas cerâmicas e dos veios brancos do calcáreo que branqueia e doura tudo. Pode-se sair a qualquer momento do dia e do astro das pérfidas vielas onde jaz António Botto assassinado por um irmão das mesmas artes, ou das vielas lúgubres de Fialho de Almeida, com o lenço levantado, para vedar a entrada a miasmas. E de repente ver uma bugainvilla que se dourou de sol e vermelho, e se ramificou num crime perfeito e numa janela que evoca coisas manuelinas, som de mouras, silêncios de fidalga à espera do mar ser azul e longo. Lisboa é o centro do Universo, porque enquanto em Paris uma pessoa é lançada continuamente para o exterior e para a tónica féerie, em Lisboa a fuga ou a viagem é toda ela para o interior, para a frase inacabada porque se retira, se esvai e se disfarça antes de ser acabada, com essa reticência nobre de quem não quer dizer tudo, e acha que o pouco que disse já foi demais... Depois, há aquela questão dos grandes rios, e sem menosprezar os pequenos, o Sena é um rio de aldeia em curvas. Clóvis admirava-o, trouxe para ali as suas colmeias de abelhas e construiu um palácio só para estar junto do rio. O infinito encontrava-o no serpentear rútilo da curva e da contra-curva e nas miragens de ácer e alazão correndo pela margem. Mas o Tejo, fia mais forte, tem coluna de espadarte, é um mar adentro, e não vale pensar-lhe apenas o fundo de um escuro dourado, e o dorso esplêndido, reluzente, porque como muito bem sabia Camões antes e depois disso é ledo, por mais garrafinha de plástico e sacos do mesmo que leve na corrente, nunca perde esse aspecto ledo, ledo e claro.

2 Comments:

Anonymous Jean de Rouvyère said...

Cher Miguel,

Tu sais si bien décrire les deux villes! Merci de m'avoir donné un autre plan sur les deux, que j´aime comme un enfant aime sa mère. C`est une des plus belles pages sur Paris et Lisbonne que j´ai lues.

Jean

6:32 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Fale mais de Lisboa, gostei da maneira como a vê e a sente.

8:44 da tarde  

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