/* PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して - 風想像力

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2008-11-03


Silvana tem trinta e quatro anos, usa óculos muito graduados, tem o cabelo demasiado armado, e um olhar de lamelibrânquio. É hoje em dia recepcionista de uma clínica e tem um desejo: quer encontrar a sua dentadura dentro de um peixe comprado no mercado.
Faz vinte dois anos, quando nadava na praia, veio uma onda forte que andou com ela "de reboleta", até a deixar na praia, de novo desdentada. Tinha dentadura desde os dez anos. Um médico que se armou em dentista, um dia brocou-lhe vários dentes de enfiada. Depois tapou-os. A sua cara inchou. Parecia uma daquelas
freaks que se exibiam nos circos do século dezanove, uma mulher cara de lua, com papada e tudo. Ou também parecia uma daquelas mulheres que sob a influência dos corticóides se transformam em medusas e peixes-lua. Mas não divaguemos. Voltou ao médico que lhe deu um antibiótico que devia ser empregado na guerra química. Resultado: os dentes ficaram transformados em renda fina e tiveram que ser todos extraídos. Aos dez anos teve vergonha de dizer na escøla que tinha dentadura. Aos doze uma onda roubou-lhe para sempre a sua primeira dentadura. Ficou morta de vergonha e sobretudo de medo do seu pai. Ia bater-lhe, ralhar-lhe. O sr. Júlio Henriques sem dúvida que não lhe pagaria uma segunda dentadura.
Silvana fugiu para o campo. Encontrou um buraco numa oliveira onde quase cabia. Tinha que dormir com os pés de fora. De manhã tinha os pés tão gelados que nem depois de descer e subir duas vezes a pé coxinho o monte os conseguia aquecer.
Ainda hoje tem um vago tremor nos pés e nos olhos. Mas tornou-se determinada. Aquelas várias noites que passou dentro da oliveira antes de ter coragem de se apresentar a seu pai e explicar-lhe que tinha perdido a dentadura no mar deram-lhe um conhecimento estranho para uma miúda de dez anos. Assim viu bichos que só existem em contos antigos como o lobo branco e a coruja do corno de foles. Viu também o boieiro decapitado, um antigo abegão que vivia nas Cumeadas e cuja cabeça foi cortada pelo corno de um touro em fuga. Viu as estrelas em guerra e as estrelas a dançar. Viu a mão de Sam Tiago a cair como um raio por cima das papoulas narcóticas que cresceam no meio das ruínas. Viu uma nuvem nocturna em forma de sapato e que andava por cima da copa das oliveiras. Viu o desmundo que há depois do mundo, e o antimundo do sete-estrelo.
Ao voltar a casa os seus olhos giravam como sóis distantes. O seu pai ouviu-a contar tudo, e para surpresa dela beijou-a muito, apertando-a contra o peito e disse-lhe muitas vezes tu és a moura das eiras e das azeitonas. E foi com ela a uma terra muito distante, de táxi, com o sr. Brito de grandes bigodes negros ao volante que passou viagem toda a cantar, para encomendar uma nova dentadura.
Ao pô-la, um mês depois, sentiu que ela era uma oliveira. Mas uma oliveira que à noite subia nos ares, e que era azul entre as estrelas. Desde então todas as noites voa, um voo desdentado, mas brilhante. Percorre os domínios para lá das estrelas, onde só há coisas gigantes e mais mundos que giram à nossa roda. E torna-se transparente. De manhã, quando estende um dedo fora dos lençóis vê que dentro dele está o universo. É estranho o poder das jovens desdentadas - olham-nos do outro lado do universo.

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