/* PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して - 風想像力: DONA ISAURA ÍCARIZADA

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2008-01-31

DONA ISAURA ÍCARIZADA




A Dona Isaura tinha a língua muito comprida. De idade indefinida entre os cinquenta e os setenta anos, tinha o cabelo loiro cor de cabeleireiro. Um loiro seco, armado, cabeleira de palhaço andante, ou de maestro ao longe. Andava no passeio e fora dele, aos zigue-zagues. Deitava a língua de fora aos carros. Era mesmo muito comprida, aí coisa de um palmo ou palmo e meio de língua. Se não a viam com a língua de fora, atirava coisas contra os carros. Nada de muito ofensivo. Pétalas, folhas, bolas feitas de jornal e revistas.

Dizia coisas para consigo, tipo coisas de Barbie das situações tristes, como pode dizer o Peixoto, a Tamaro de calças do alentejo. Tipo: estou junto da valeta ao lado de Deus. Mas à vezes dizia umas blasfémias nada virginais, tipo espeta o teu c. no teu c. carola! Eram coisas que aprendera na rua a ver netos a meter a mão debaixo das saias da avó e a seguir a cuspir ferozes na mão azul e vermelha, e homens, com um vulto na braguilha, a correr para vãos de escadas depois de ver passar uma boazona.
Se se irritava dizia a qualquer um: vai-te deitar anão! E a seguir saltava para o meio da rua e deitava a língua de fora aos automóveis que passavam. Era de facto tão comprida que dava para fita métrica. E às vezes, qual estátua, ficava parada na rua, de cabeça baixa, o cabelo no ar, e a língua pendente muito comprida. E mais Outro Escritor Sisudo, com uma borbulha enorme no meio do bigode e um sinal castanho no queixo, parava e tomava notas no seu moleskine. Escrevia "vi o Anjo do Horrível". Depois ia sentar-se na esplanada ( tratava por tu a próstata como os homens de letras) e escrevia um daqueles poemas chatos, concretos, à Salette e à É Eme de Melo e Castro, que era mais ou menos assim

Vi o Anjo do Ó
Vi o Anjo do Ór
Vi o Anjo do Órr
Vi o Anjo do Orrí
Vi o Anjo do Orrív
Vi o Anjo do Orríve
Vi o Anjo do Orrível

Depois o escritor sisudo lambia os lábios puxava o bigode para esconder a borbulha, e escrevia a sua pequena obra-prima telepática:
7 Anjos Sem H, editada no Brasil pelas viúvas e esposas dos dois sexos do Paulo Coelho.

E tão entretido estava na sua maledicência, barata e gostosa, de cascar em escritorecos de tá-tá-ra-tá que não via a Dona Isaura, a do cabelo volumoso, que de vez em quando tinha os insultos mais pedagógicos de Lisboa dedicados aos automobilistas tipo:
"vai-te deitar anão!" e que por vezes ficava parada no meio da rua, com a língua de fora, mesmo muito comprida, com um toque de azul e vermelho.
Os putos mais reguilas da rua, tipo vidro lascado no dente, em que Lisboa abunda e que nascem entre caixotes de lixo e escarretas, no entanto temiam a Dona Isaura. Aquela língua mexia-se como uma serpente, picava como uma serpente e como esta era imprevisível. De modo que mesmo os mais ousados ficavam colados ao chão, incapazes de uma pesporrência, de uma farpada gostosa, de uma sacanice porreira.
Mas um dia, enquanto o escritor Sisudo, o tal da borbulha envergonhada, escrevia com lágrimas falsas:
tenho um destino nacional comum: apodrecer dentro de um soneto aconteceu o insólito alguém desde um segundo andar indefinido, às escondidas, despejou um penico cheio de merda sobre a Dona Isaura, que ficara numa das suas poses estátua, ela toda imóvel como um Destino Luso, a língua feroz como todo o subconsciente nacional rebarbado, a remexer. Mas algo acontecera de transfigurativo, de aúrico: a Dona Isaura brilhava. Tinha uma aura dourada à roda e a Língua começou a girar muito depressa de modo que se transformou numa hélice cada vez mais vertiginosa, de tal modo que antes dela se levantar nos ares, transformada num isaurocóptero improvável, o escritor Sisudo ainda teve tempo de escrever, num estilo peixotista: Eu e Deus estávamos na valeta. Depois, caiu-lhe caca por cima do Moleskine.

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