/* PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して - 風想像力: 2007-06

PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO 反对 一 切 現代性に対して - 風想像力

LES PRIVILÉGES DE SISYPHE - SISYPHUS'PRIVILEGES - LOS PRIVILÉGIOS DE SÍSIFO - 風想像力 CONTRA CONTRE AGAINST MODERNISM Gegen Modernität CONTRA LA MODERNITÁ E FALSO CAVIARE SAIAM DA AUTOESTRADA FLY WITH WHOMEVER YOU CAN SORTEZ DE LA QUEUE Contra Tudo : De la Musique Avant Toute Chose: le Retour de la Poèsie comme Seule Connaissance ou La Solitude Extréme du Dandy Ibérique - Ensaios de uma Altermodernidade すべてに対して

2007-06-30

navegando para Bizâncio


Olá, olá,

eu sei que de vez em quando metes o jornal no frigorífico, e não é por distração, apenas por puro experimentalismo. Eu também devia fazer o mesmo, e numa lógica invertida guardar a carne entre as páginas de um livro favorito.
Hoje perguntaram-me quantas janelas tem a sua casa? é uma pergunta interessante, se feita de repente, e sobretudo quando não se espera nenhuma resposta além do nosso ar supreso, porque as coisas que nos perguntam nestes tempos acho que nos fazem desparecer debaixo de um dos muitos pântanos lógicos. estamos atolados em pressupostos lógicos. A racionalidade pesa.
Numa dessas camionetas em que gostamos de viajar (quando desligam o ar condicionado, ou quando felizmente este está avariado) às vezes a companhia é estranha. Pescoços que não tem cabeça. Cabeças gordas que não tem corpo. Galinhas sentadas com óculos a esquadrinhar a paisagem. Seres aduncos com focinho de porco a dar de mamar ao reader's digest.
Eu também devia pôr os jornais no frigorífico. Finalmente teria opiniões geladas a propósito de, tudo? Nómenos apenas, depois dos fenómenos? Eu sei que o encontro arrepiante de uma linha do Ulisses com um filet mignon deve provocar qualquer coisa na imaginação morta imagina com que ficámos depois de Samuel Beckett ter entrado ba Lusitânia, na colecção Seuil, comprada no Brito que patinou com uma pneumonia ,antes das traduções azaradas da Assírio, ou aziriadas da Ázaro?
Pois não sei quantas janelas tem a minha casa, nem sei se me interessa saber. É muito mais interessante ter uma casa com um número indeterminado de janelas, e nunca saber o número de portas, quantos metros tem o corredor, de quantos metros podemos cair até nos estatelarmos contra o focinho imundo da actual lusitânia.
Sei muito bem que vivemos tempos deterministas. São agora aos milhares as regras, e atrás delas os ditadores, os microditadores, os minisalazares. Tudo se quantifica, tudo se determina. Uma febre de pôr tudo em ficheiros.
Eu acho piada ao computador que deitei fora e ao ecrâ esventrado. Ambos têem agora um ninho dentro. Formigas saiem pelas teclas do teclado. Sabia-se que o computador tem algo de insecto lógico e previdente, um colector sistemático. os seus pequenos chips, a sua rede de aranhas electrónicas. mas é interessante ver formigas de Lineu a sair pelas teclas.
Quero uma casa com um número incalculável de janelas. Um dia pus-me a ver duas janelas da minha casa e cada uma delas era a aurícula da outra. Não há coisas estáveis, sólidas, fixas. O universo é uma membrana trémula.
Tenho uma cadeira de palha onde me sento para ler o Finnegan´s Wake, que escrevi há quase um século. The nightingale. Mas vou passar a metê-lo no frigorífico ao lado dos gelados do santini. Esta emigração da literatura para dentro do frigorífico tem a ver com a deriva dos igloos ou dos ice-bergs. Sempre confundi uns com os outros. E acho que as casas nómadas nunca tem uma entrada idêntica.
Por isso estou a tratar de pôr ainda mais escadas na minha casa- Uma casa recoberta de escadas e algumas que não vão dar a parte alguma. cada janela é um tijolo do meu labirinto. Perdido em vidro? Talvez à espera de seres vitrificados. Pelo menos estas passagens por mundos inorgânicos tem o seu quê. Entretanto fala-me de todos os submarinos vegetais que conheces. Eu estou sempre disposto a multiplicar o meu número de raízes. A turbina das raízes leva a mundos sem nome, ainda.

Pintura: Jardim das Delícias, de Hieronimous Bosch

2007-06-29

A TERCEIRA MEIA-NOITE



devo estar com febre num país pebre
devo estar com fobre num país fome

as caravelas entram-me pela caveira
saiem-me pela laranjeira

e os bravos de Alcácer Quibir
bradam-me: nós nunca quisemos lá ir

mas eu sou El-Rei Enigma
abra o Espelho e sigma-me

O Grande Saldo de Osíris
fica bem na sua íris

digo coisas obscuras à faience
Madame Y Grego tenha pacience

uma vez Édipo Morto
Trinta novas Mamãs e vinho do Porto



Quadro de Mário Cesariny "Eu Sou a Terceira Meia-Noite..."

ENTREVISTA MEDIÚNICA A SI WA WATA WA

Eu era muito novo, talvez com cerca de onze Luas. Já tinha saído de noite sozinho para a planície dos corvos tristes, e empoleirado numa árvore, vira um lobo a uivar. Há gritos e uivos que rasgam a carne, e que ficam para sempre dentro de nós. Mais tarde vi uma águia que levava uma lebre entre as garras, e deixava para trás, suspenso no ar, um fio de sangue.
Cão Furioso, um velho Zuni disse-me que se eu quisesse ser um bom caçador eu tinha que passar uma noite inteira sem despegar os olhos da Lua. Na altura não entendi, pensei que Cão Furioso estava a querer pregar-me uma partida. Mas como ele era um grande caçador fiz o que ele me sugeriu.
Escolhi uma árvore perto do cemitério dos nossos bravos. Untei as pálpebras com um pouco de creme de peyotl, para não se fecharem. Antes tinha olhado, de viés, com os olhos semicerrados, para a lâmina de uma faca que pus em brasa num lume feito por mim, junto de umas rochas vermelhas.
Toda a noite olhei para a Lua e vi. Vi que era um coiote solitário na pradaria do céu. Desmanchava nuvens, caçava relâmpagos. Tinha uma fome incrível. Comia os humanos distraídos. embora deixasse os seus corpos a andar. Mas estavam sugados por dentro. Há imensos caras-pálidas assim. Legislam, levam o cavalo de ferro a toda a parte, tem paus que deitam fogo, mas estão comidos, mortos por dentro. Não vêem nada. E dizem que tem um Deus que os protege.

Foto de E.Curtis. Si-Wa-Wata-Wa, Índio Zuni.

2007-06-28

BIRTH AND BOREDOM AND PRESIDENTIAL SPEECHES





Why be born again when being born is already so boring?

To be inside the womb is so boring for both baby and mother that after 9 monthes they separate for ever

Any presidential speech is made to put you to sleep until next Presidential speech

If you ever finished something you know the fun was doing it: so I don't get why some psychologists complain about unfinished business?

Leaving love unfinished has some advanatges : it may not produce one more boring being

All Aphorisms by Miguel Drummond de Castro. You may use them as long as you quote the author

YOGA FOR BLOGGERS AND COMPUTER USERS

Sit up straight with your head and shoulders facing forward. Place your right hand on top of your computer monitor.

Next, slowly raise your left arm straight above your head. Gently stretch your left arm backward as
far as is comfortable. Hold for three seconds and then switch.


The key word here is "stretch, stretch and stretch". Don´t be affraid of stretching, it handles a lot of unnecessary tension. No mantra singing required at all. Use cats as inspiration, they are stretching masters.

UM PAÍS DE BANDA DESENHADA



Portugal tem uma qualidade: nunca falta matéria-prima para um espírito satírico. Neste momento emergiu um pacóvio supremo, Comendador ainda por cima, que nem de encomenda, falando num português quaternário, de emigrante já muitíssimo afastado dos cuidados com a língua, e incapaz de onde quer que passe de não deixar cair o verbo e baba da sua abalizada opinião.

A sua remediada colecção de arte moderna (coleccionada para ele por um homem com apelido de frade, Capelo), albergada na jóia do cavaquismo, o CCB (cujas interessantes exposições de arte pararam para albergar a Colecção Berardo), de repente faz com que o PM toque as trombetas de Triunfo e anuncie que "Portugal está mais rico e Lisboa mais competitiva".
Nem mais. A Arte agradece. A Arte competitiva... torce-te Schiller no teu túmulo! Grande tirada, digna de uma daquelas Óperas Bufas, italianas, de fusão. Veja-se, para Ópera: tem Comendador, Frade, mete Robertos (o PM entre ele), uma Ministra de calças vermelhas, à toa, imensas Bandeiras de Discórdia, um Director
Demissionário, de apelido greco-italiano que o Comendador confunde com um Fidalgo ...e 28 mil figurantes (tantos quantos visitaram a novel colecção avaliada pela Christie).

Depois do intelectual "des-empenhado" (o Mega) se ter providencialmente demitido (a Ministra cedeu aos Imperativos do Poderoso Berardo e mandou ao Mega erguer os estandartes que o Berardo reclamava) resta esperar que agora, chegado à razão, a nova direcção do CCB premeie o Comendador com a bandeira por este tão ansiada: Em fundo branco dois casacos negros Armani, versão Fátima Lopes, cruzados, recheados de diamante e, ao centro, uma garrafa de vinho com cápsula de alumínio, desenhada pelo espectro do Andy Warhol.




2007-06-27

A MORTE DO "É ASSIM : "



Há uns anos atrás apareceu uma série de despachados mancebos e mancebas, alinhados numa implacável divisão panzer, que salpicaram de imperativos "é assim " todos os seus enunciados. Parecia-me estar a viver dias de grande voluntarismo social, de extensa e simplista pedagogia mas de certezas inabaláveis (eram sem dúvida precursores socráticos).


Alguns campeonatos de futebol, de hóquei, de futsal, de futebol de praia perdidos mais tarde, com a moeda europeia, caruncho de toda a economia, a fazer ruir as arquitraves da sociedade, noto que disparou para valores elevadíssimos a taxa de mortalidade do "é assim!". Ou seja, quase nem se ouve, nem na província onde é assim: chegou uns anos mais tarde.

Portanto é assim: o é assim morreu.

EDIT YOUR PROFILE



Estive a ver o EDIT YOUR PROFILE deste blog e quanto ao PROFILE, perfil, tenho a dizer o seguinte: noto que os antigos Imperadores Romanos apareciam de perfil nos sestércios e outras moedas. Os antigos Reis da Pérsia, como Dário, também. De perfil aparecia o meu avô, o Imperador do Sacro Império, Charlemagne (meu e de mais 20 milhões, pelo menos, de europeus). De perfil, sempre na numismática e na estatuária, continuaram a aparecer séries mais ou menos lendárias de reis. Nessa feíssima e miserável moeda chamada euro ainda há gente a aparecer de perfil como o Rei dos Belgas e a a Rainha da Holanda.

O que se infere desta incursão diacrónica pela história e pela numismática? Que o Perfil está associado à soberania, ao poder e à moeda e que a nova tecnologia massificou o perfil. Cada um pode ser monarca no seu blog.
Como vivemos numa sociedade cheia de Instruções e regras e Modos de Usar o Profile tenta atenuar um pouco o mistério do Perfil. As sociedades modernas tem horror à distância e ao mistério. Somos todos conhecíveis e atomizáveis. Digamos que a sociedade moderna tolera o Perfil e assim faz dele um Perfil desmistificado, massificado, público, intimista q.b. com aquele toque de camaradagem e intimidade com que os anúncios se nos dirigem. (A Publicidade há que anos que não desiste de ser a nossa melhor amiga, conhecedora dos nossos mais invioláveis segredos, ao mesmo tempo que nos afaga as partes mais subornáveis do ego, com aquele ciciante: Tu Mereces, que continuamente nos põe medalhas de mérito ao pescoço).
No entanto nada mais mentiroso (além da Publicidade) do que um Profile. O nosso Rosto Público no Profile fatalmente está expurgado e engraxado, lavado com Detergente, Digitalmente perfumado, e fofo com Soflan ou rude com raspa de crocodilo.

Enfim, olho para o meu Profile e devo dizer que o meu narcisismo digital fica em maré baixa. Ainda por cima ainda não descobri, em parte por snobismo puro em parte por discplicência congénita e sobretudo adquirida como é que se põe o raio da #"/*%4#"! da fotografia lá no lugarinho dela, ao alto e à esquerda. De Profile.

2007-06-25

NAS MÃOS FÁCEIS E FRACAS DE TANTOS CANDIDATOS









Esta grande habilidade em conseguir não ter ideias, que distingue quase todos os candidatos à Câmara de Lisboa, foi o que o adiamento da data de eleições penosamente demonstrou.

Mas o que ainda mais causa espanto é a cândida confiança dos eleitores na total incapacidade em ter ideias dos seus "champions". Deve provir dessa fé cega no futebol ou no hóquei português. A priori todos estão convencidos que vão de certeza ser campeões, mas uns voltam para casa contristados, porque não se cumpriu a promessa, que ao que parece dispensava de saber jogar com élan, com empenho. Outros encolhem os ombros e resignam~se. O Destino , em Portugal, anda sempre ao avesso de nós.



Porque será que de cada vez que o PM anuncia uma "Grande Prioridade Nacional" ou um "Grande Desígnio Nacional " (o homem está a sempre a tirar Grandes Desígnios da Cartola) eu sinto logo que essa não é a minha prioridade nem a da maioria dos portugueses?

Onde é que já ouvi esta dos "Grandes Designios Nacionais"? Além dos Grandes Desígnios do "Conducator" dos povos, o Ceaucescu e do Grande Desígnio Ariano do dear øld Adolf , tem havido uma série louvável de grandes desígnios. Por exemplo o Grande Desígnio Multibanquiano Lusitano, de acabar com quase todo o dinheiro e pôr todos com dinheiro de plástico na mão. O Grande Desígnio Esfero-Pedonal, mais conhecido como Pé-Bola de pôr todos os lusitanos a ver Esfero-Pedonalices pela TV. O Grande Desígnio Golfiano que está a demonstrar à saciedade que durante séculos os portugueses nutriram uma paixão ardente pelo jogo do golfe que agora graças ao consulado de mentes supremas se está a realizar na sua plenitude, espalhando campos de golfe por toda a parte. Além destes grandes desígnios, temos igualmente o Grande (e secreto) Desígnio de Adiar o Processo da Casa Pia For Ever, o que além de ser um Grande Desígnio também é uma prioridade nacional.

(Entretanto, está tudo a atacar o novel ministro Pinho, mas uns 4 ou 5 anos antes dele o presidente Jorge Sampaio esteve na China onde, com sorrisos aliciantes de hospedeira, anunciou aos chins, que Portugal tem imensas praias e campos de golf (não invento, a realidade supera sempre a ficão)


Pois Galpogal, o actual Golfogal, ainda tem mais campos de golfe neste momento! Condecorem-se, portanto, com a Ordem do Esfero-Taco esses dois grandes portugueses, iluminados por um duplo Espírito Santo (Banco e Entidade Santíssima) que tão bem tem sido intérpretes da paixão nacional, o Grande Desígnio Nacional de fomentar Grandes Relvados de Golf intervalados por Autoestradas sem fim, tudo numa moldura de muralha de prédios à beira-mar. Belas e necessárias prioridades, convenientes à aceleração do progresso e do desenvolvimento e da modernização

Quanto às Prioridades Nacionais (sinónimos em pobre dos Grandes Desígnios), neste momento em que se anuncia mais uma auto-estrada para Bragança, o Grão Prior da Ordem das Auto-Estradas, com o seu fervor cristalino acaba de anunciar mais uma Prioridade Nacional para aquele distrito, até agora tristemente afastado do desfrute da verdadeira civilização devido à sua "interioridade". Bragança, a triste interioríssima cidade, vai ter como todas as outras cidades a sua Auto-Estrada.


MÁRIO LINO TINHA QUASE RAZÃO (Homenagem de desagravo)


Grande taquicárdia seguida de sentidos actos de desagravamento produziu o eng. Mário Lino Jamé quando proferiu o seu célebre Jamé! Jamé!. Chamou deserto à Margem Sul, no que esteve certo maugrado o ressentimento indignado de todos os subúrbios de Setúbal. Mas ele não pecou por excesso mas sim por defeito. Tinha quase razão! O deserto não é só na Margem Sul é também na Margem Norte. Terá campos de golfes, mas é um deserto peculiar. Um Deserto de Ideias, onde a areia dos cérebros cheios de ossadas se juntou ao cimento e produz sem cessar autoestradas. Naturalmente o ministro não tem culpa de ser Filho desse Deserto Mental e de ter o característico cérebro Catavento-Vazio dos seus múltiplos suburbanos.

2007-06-22

HÁ UM TEMPO



há um tempo
há um tempo preciso
em que ao sair de casa pela manhã
se deve pegar fogo ao nosso automóvel
e deixá-lo para trás a arder
com a nossa história pessoal
sem sequer nos virarmos para trás para ver
o fogo surdo das nossas manias
há um tempo
há um tempo preciso
para abrir com toda a calma
o guarda chuva dentro do restaurante
e depois mostrar as maxilas
à estante dos vinhos
e depois de com imensa dignidade
fazer cair todas as garrafas sem um só olhar
para todos os cadáveres que tem dentro
e, depois,
no meio de um mar de vinho
em segunda ou terceira edição
e com prémio,
em alta e portuguesa voz
electrocutada pelos Lusíadas
e todos os anúncios fluorescentes
reclamar: Chefe, onde está o pratinho das azeitonas!

ROSA SEMPER VINCIT


Hoje não há nenhum homem nobre que seja cristão ou socialista. O socialismo é um cristianismo sem Deus e o cristianismo é um refúgio de espíritos senis atordoados pela morte, e que exibe a todos um crucifixo.

Os governantes do mundo só governam sombras de homens, não os espíritos desafiadores e brilhantes que hoje estão vestidos de treva, não como góticos nem templários, mas da treva que vem do sangue das rosas.

Porque foram cometidas violências cegas contra o mundo da floresta, e às cegas se ergueram prédios e se concretizou a ideia mais falsa do centro, que são os centros comerciais - laboratórios de perfeita decadência e de arregimentação de escravos hílares, que riem com a batuta dos fenícios de UR que são alguns apresentadores da TV.

O mundo da floresta ainda tem, apesar de tudo, o seu sangue ligado à vibração de folhas do ácer, gira nas pupilas do último lince, e mordeu a morte em pleno rosto, deixando-a a uivar e desfigurada.


Foto de Susana Neves

ABSINTO

Dizem que depois de bebê-lo o mundo fica verde, e que os deuses nos batem à porta, cobertos de pó mas admiráveis. Enfim, gostava de beber umas rodadas de absinto com Rimbaud, no fundo de um lago em chamas.

OS PRESIDENTES

Não se dá por eles, mas estão lá. Temos uma tendência para escolher presidentes fantasmas, que em aparições etéreas dizem coisas inócuas.

SEMPRE EM FUGA DA PSICOCRACIA

É possivel comparar a burguesia que contabiliza, inventaria, enumera e colecciona para si mesma, a Thanatos, deus da morte?

A pulsão de guardar, de conter, de absorver, de enumerar as coisas em equações económicas, de "dar valor" a umas coisas tantas vezes para tirar valor ao que tem (dar mais valor a um automóvel do que a uma árvore, a um computador do que a um gato, a uma urbanização do que a um vagabundo) parecem os trabalhos da morte sobre o que é vivo e por ser vivo não se enumera, quotiza, associa, protege ou inventaria.

Uma sociedade cheia de regras, de restrições, de senhas de acesso, de fechaduras, de seguranças, de prevenções, é uma sociedade ou morta por anticipação ou profundamente anestesiada. É a nossa. E é infernal além de ser infernizante.

T SHIRT WARS


Evident collapse of mortality is fodder for post-new age Dyonisism.

2007-06-21

T SHIRT WARS


Saint Jerome attacked by T shirts of all sorts.

T SHIRT WARS


God is Dead. You can say that it suits Him. Dead is God. The antiprayer attitude is also prayer of some sort? The black background combined with Red Flaming letters gives an added Le Rouge et Le Noir revolutionary spice.
God being All Lover also loves to be put to death.

T SHIRT WARS


Explicit hatred of self leads to suicide by fuel. It is ingenious. Here the message is petrocide is an alternative. In time dozens of western martyrs will make themselves explode with fuel. Perhaps some will discover that raw fuel is excellent for the Third Brain, also called Paleo or Reptilian brain.

T SHIRT WARS


Think green, proclaims this T-Shirt. It does not forget that it uses an human ad. It has even sucked her brain to the exterior.

Probably in future, some human specimens will have their brains outside the skull. Probably some will be raised in aviaries, to provide with cerebral juices the Dominant Rotschilds.

T SHIRT WARS


Sounds more mental with a yellow background. Yellow colour acts upon the sublymbic system as well as on the Sigmoid area of the front left brain lobe. It increases rationality. Yellow also makes someone look like a member of the firebrigade. Quite surprisingly these fire manics enjoy a universal devotion.

T SHIRT WARS

I don't know whether actually someone has been buried with his favourite T-Shirt on, but I know that definetely most people on earth have used a T-shirt.

There is even an International T-shirtism. I'll try to develop the murderous consequences of T-shirtism attitude and present sone ultracontemporary views on Style versus T-shirtism. Let me say that T-shirts are now almost pre-historic. They´re awfully old and old-fashioned now. Has that increased their dignity? Or are you using your Aunt antiques over your chest? Let's have a most biased look on this subject for a while.

A QUEIXA-CRIME JÁ FAZ VÍTIMAS: O PRÓPRIO QUE A ARTICULOU



O PM José Sócrates com esta iniciativa de apresentar uma queixa-crime deu um tiro nos pés, pôs contra ele todo o país que até agora, com portuguesa bonomia, simplesmente o andava a passear nas anedotas. As anedotas agora passarão a outro grau, a inventariar o ressentimento. E paulatinamente, por mais que os Bagãos Félixes do socialismo rujam, transformar-se-ão em flechas mais venenosas, ou seja, em não votos.


É que se há coisa que desagrade aos portugueses é constatar que tem pela frente queixinhas. A recente onda de bufaria, da hiperzelosa do DREN, não ajuda. Queixinhas e bufos são duas figuras já inventariadas e catalogadas no consciência colectiva portuguesa. Na altura de seguir para intervir na Europa, como Édipo em Colona, o PM apesar do muro de assessores sabe que está só. É a sua hora de glória mas o que o vento lhe sopra ao ouvido é detestável.

E tivesse agido de forma lisa, em vez de se entregar a contorcionismos, tudo não teria passado de um fait-divers. Agora não. Avolumou-se, transformou-se num fait unique, deu para conhecer os meandros da sua mente de bastidores, manobrista, cheia de jogadas escondidas. E transformou-se num imenso facto político cujos contornos chegarão à Europa e que revela uma mente trémula, que tudo faz para conservar o poder.

Enfim chega sempre a hora da verdade para os pequenos maquiavéis de província, que entram demasiado cedo na história donde, de resto, não tardam em sair.



O INSÍGNE FUNCIONARIADO







Somos um país de fils-à-papa. Se tens talento mas o teu papá é um qualquer trabalhólico anónimo, não ganhas o lugar. Mas se o teu papá tem a pança bem assente nas calhas de uma carreira (basta ser um alto funcionário de qualquer coisa, o que não é dificil neste país de funcionários) e a sua cabeça já está aureolada com a paz que dá uma boa reforma, escusas de ter talento, o mundo é teu.


Nada de grave. É preciso com inteligência defender a mediocridade, para assegurar a continuidade da mesma. O que mudou com o 25 de Abril? No detalhe alguma coisa, no essencial praticamente nada. Está lá a mesma gente, os novos fils-à-papa, mais uma espécie proliferante de pedofilia política, os boys.

Engordar, criar calva e pança respeitável, sustentar a Pátria e a Família (e a amante, com idas discretas ao bordel) dantes era possível e desejável ao doce abrigo da União Nacional, que se desdobrava em mil tentáculos, como a Legião e a FNAT. Agora a oferta multiplicou-se. À sombra de qualquer partido pode-se esperar pela pança pacata e um futuro estável para nós e descendência. O próprio bloco de esquerda, luz dos povos, caminha para a estabilidade funcionarizada.

Por isso tudo nestas xanaxadas eleições para a Câmara de Lisboa eu votaria em quem dissesse: não votem em mim além de fils-à papa sou um refinadíssimo filho da mãe.

Mas não vislumbro nenhum com esse perfil. São todos imaculados. Desde o berço devotam um amor filial a Lisboa. X fazia colecções de azulejo na infantil. Y desenhava corvos com um ramo de oliva no bico. Z em vez de ir para a rua atirar pedras e bolas feitas de jornal sobre a cabeça dos transeuntes encerrava~se na biblioteca e contemplava estampas da cidade do século XVIII. Tanto X, Y e Z, desde pequenos alfacinhas de eleição, sabiam que um dia teriam de apoiar os santos populares (invenção de António Ferro, a luz estética do Salazar) e os sidosos. Convem ter um coração solícito com a lepra dos modernos. Um lazareto. Doces falas de inclusão social.

X visita a mesquita e tem um pequenito discurso à Laurinda Alves sobre o respeito por todas as religiões, e a necessidade de fomentar o diálogo. Y visita depósitos de velhos atrás de velhos. Calejado com os manípulos das suas duzentas motas Z canta o seu hino de Lisboa, em mangas de camisa, ao lado do povo. Y dá o seu beijo de Judas, o outro o seu beijo de Judoca. Dão beijos e abraços em terceiro idosos diante das Cãmaras. Uma onda de love love percorre as candidaturas. Um aquece o coração falando de como devemos proteger os idosos, outro no nobre peito estreita os sidosos e as casas de chute. Também abre a porta ao casamento gay. Imagine-se daqui a uns anitos, o casamento, à civil, de gays por alturas do S.António.
Emoções fortes, liberdade popular. Se se fizesse um retrato robot do modelo de herói popular acarinhado pelos candidatos à Câmara este seria um idoso, gay, que é sidoso e frequenta casas de chute. Cravo atravessado na boca, aos pulos como o João Baião.

O sismo económico da Câmara? Vai-se resolver com rigor. Os homens fortes, um escuro de pele e o outro no apelido, estão mortos por que acabe a campanha. Desde o primeiro dia, mais aeroporto menos aeroporto, que já não tem nada de novo a dizer. E seja quem fôr que lá chegue ao topo, e branda a Vara do poder autárquico, será para nosso conforto e descanso, mais um fils-à-papa, um ex-boy criado à sombra benigna deste ou daquele partido.

Entretanto W o homem do antigo Partido popular, com nome de fidalgo da Casa Mourisca, ou de peça do Dantas-morra-pim tenta parecer um fantasma saído de um filme inglês. Está ali para assustar. É magruço. Não tem pança? Tem, mas é só mental. Desde pequeno treina ser coruja.
Entretanto o outro candidato, doutro partido popular, o defensor do proletariado urbano de facto rola por cima de uma pança estimável, tratada, envernizada, cimentada em belas e bem regadas jantaradas. Esteja portanto a Pátria tranquila. Felizmente nada se passará. A estabilidade fundamental do sistema de fils-à-papa continuará intocável. O seu corolário, o de filhos da mãe, também. Lisboa pode continuar o seu soninho, embalado pelas sereias. Está garantido o prazenteiro sono diurno em qualquer repartição.

O HOMEM QUE RAPTAVA ESPELHOS


Trata-se de uma história absurda passada num país atravessado por mil países, o Iraque. Não tem a menor credibilidade e nem sei porque a vou contar. Desde logo se vê que Sedhim Ali, com uma perna a menos, a saltitar pelas ruas cheias de buracos de bombas, não regula bem da cabeça. Mesmo quando há um atentado sucida não se protege, não se defende, continua a saltitar com o seu coxear antigo, empurrando o seu carrinho de mão.
É suicida a maneira como ele continua a avançar. Eu estou admirado como a polícia toda abrigada atrás de um muro de cimento armado ao vê-lo avançar para eles não o transforma em passador. E sorri, um sorriso sem jeito, de adolescente velho, de alguém que continua a sorrir para a câmara enquanto o fotógrafo é decapitado por uma rajada.
Esse espaço entre o sorriso com fotógrafo à frente e o sorriso depois de o fotógrafo ter perdido a cabeça é o seu. Quer-me parecer que a Magnum podia ter captado uma coisa destas, um sorriso entre, um sorriso depois da morte. Mas não se vê muita gente da Magnum por aqui.
No fundo desta rua, a do mártir e profeta Bedouz, há um lugarzinho onde fazem um óptimo café. O dono daquele lugarzinho é um cipriota indefinido, que faz o café à maneira turca em pequenos caldeirões de cobre, lá atrás, numa grelha atirada sobre meio bidão, onde arde carvão.
Recebe-me de braços abertos. Há clientes sombrios, com cicatrizes no rosto, e caras apagadas devido a tanta morte. O sr. Karakoulos pisca-me o olho e diz-me em francês
La Mort efface aussi le visage des vivants. E aponta-me uma mesinha onde está um tabuleiro de xadrez e o meu amigo, chamado Kiriaz, um sírio vestido como um ocidental, com uns sapatos táo engraxados, que é possivel fazer a barba a olhar para eles. Está muito contente porque sabe que vamos jogar não mais uma partida, mas a nossa partida.
Dispomos as peças com aquela forma negligentemente precisa dos velhos jogadores, que sabem que boa parte dos seus dias foi ficando dentro da cabeça do rei e da rainha, nos cascos dos cavalos sem patas do xadrez, no peões de cabeça redonda, como soldados do Cromwell, nos bispos de viseira cortada como cavaleiros, nas torres tiradas de um brasão de fidalgo ibérico.
Dois traços de fumo paralelos anunciam que o café já chegou à mesa. Mais virão. Bedouz sabe os tempos do xadrez, vem espiar a estratégia, e dizer uns hmmms hmmms se a jogada lhe parecer de mestre.
Kiriaz nunca sorri e um dia afirmou que o sorriso punha o homem perto dos anjos, semelhante às mulheres mas incapaz de as conhecer. Mas não se importa com os que sorriem, oferece-lhes o seu rosto que nunca conheceu um sorriso, e demora-se.
Entretanto, Sedhim Ali chega a esta espécie de sucursal poeirenta do Parnaso e pede licença para empurrar o carrinho para dentro, não vá algum ladrão de Bagdad levar-lhe a sua carga preciosa: espelhos. que cintilam ao de leve.
Salam, Salam, vai dizendo. Até se sentar junto de nós num tamborete baixo, com o seu sorriso de depois da morte, enquanto eu troco um cavalo por outro cavalo.
Karakoulos sem sequer se virar pergunta-lhe: "e então Sedhim? como correram as coisas hoje?"
-Raptei dez espelhos no bairro das galinhas francesas - diz Sedhim, com modéstia, baixando os olhos como um "turpinoor".
Eu fico sobressaltado. Parece-me altamente imoral e perigoso. Um homem que rapta espelhos é qualquer coisa de tão aberrante e estranho que nos dá pele de galinha imediatamente e vontade de erradicar aquele espaço caótico que de repente se ergue à nossa frente, uma vertigem onde tudo o que era deixa de ser, deixa de passar com a velocidade dos carretos certos, e entra-se noutro plano inclinado e perigoso das coisas, onde tudo treme e começa a deslizar para a esquerda e para o fundo.
- Mon cher, - diz-me Kiriaz levando-me um bispo, " aqui em Bagdad é preciso ter jeito para ser um quadro cubista. Ou seja, a alma pode estar cosida a uma parte errada da nossa anatomia. Um olho pode estar posto na nuca em vez de estar no sítio certo. E por exemplo os cabelos das mulheres podem-se prolongar, em chamas, até à linha do horizonte."
Com a sua elegância de cisne antigo, Kiriaz bebe mais outro gole enquanto se ouve uma explosão ao longe. E continua:
"Vou-te contar como morreu a mulher do turco Mehmet. diz-me Kiriaz. É uma morte em quatro ou cinco linhas. Ou talvez menos. Tem a precisão de um conto de Borges, a efervescência de uma imagem de Rabelais e talvez a concisão de um hadith. Era de origem italiana, chamava-se Joséphine. Tinha uns peitos abençoados, daqueles que são delicados e gulosos. Estava toda vestida com um kaftan vermelho com bordados dourados que representavam a Fénix. E há quem diga que à alegoria que é a morte nós não nos opomos com outras alegorias igualmente bizarras e deslocalizadas...enfim. Os shiitas de rosto tapado entraram aos berros, com aquela energia pavorosa dos que contam os dias aos outros, e dos que fazem marcas na coronha para manter certa e inflexível a conta dos que abateram. Ela, ao vê-los, levantou as saias e virou-lhes o rabo nu - uma delicadeza! - e disse-lhes: "querem ver uma peida peluda e fedorenta a brincar ao gato e ao lagarto?" Os homens pararam por momentos e ela soltou um traque monumental, digno de um dragão. Depois, furiosos crivaram-na de balas. Mas ela morreu a cantar com uma voz de sereia que enlouqueceu todos os seus assassinos."
Depois Kiriaz virou-se para Sedhim, e perguntou-lhe com aquela negligência exacta, "não é assim, Sedhim Ali?"
Este acenou, sem muito entusiasmo de resto, várias vezes com a cabeça. Vi que tinha um olho muito maior do que o outro.
Kiriaz com o seu enorme cosmopolitismo disse-me, desculpe, e a seguir levou-me um bispo, e disse em tom de confidência:
"Aqui o nosso Sedhim tinha raptado dois espelhos da casa de Joséphine. E ela prometera dar-lhe dinheiro em troca, mas não deu... Logo...aqui o nosso amiguinho subiu à Torre da Mesquita de Omar com um lenço de seda amarela, e ao chegar lá em cima acenou por duas vezes em direcção do Oriente."
Outro gole de café, com aquele género de gestos vagos e perfeitos que condensam o tempo porque captaram toda a atenção e, depois, Kiriaz sacudindo uma mosca, diz também naquele registo de displicência contida:
"E já se sabe como este género de coisas... este tipo de metonímias funciona muito melhor do que os telemóveis ou do que as tretas dos jornalistas, que não sabem nada do Grand Jeu."


(Na imagem a antiga Bandeira do Iraque, antes de Sadham Hussein)

A IMPUREZA DO ÁTOMO E A ECONOMIA



Quando o vazio foi crucificado na forma de modelos atómicos, surgiu uma pulsão representativa tremenda: teria que haver modelos geométricos do átomo, este teria que sofrer a geometria (domesticado numa paronímia).

A gótica e horrível cidade de Bruxelas, cheia de holandeses menores ( flaxmengos), prontificou-se para erguer em escultura-sinal-dos-tempos o mais hexagónico/geometrizante modelo atómico de que há memória. Essa infeliz escultura repercute (tem ressonÂncia) no dinheiro mais feio que o mundo alguma vez conheceu: as notas e a moeda do euro. ( depois do Eh! cú)

A pseudo ciência atómica desde então explode o mundo em zonas/pinança. Onde posso seleccionar o meu impuro átomo? No cu do sistema? Na abstracção do espaço verde? No nada fiscal?

2007-06-20

EMPRESÁRIOS ANÓNIMOS LDA


Um país com empresários borrados de medo.

O Estado começou a querer controlar o direito de opinião na blogosfera.

Ao que parece já há uma queixa contra Sócrates por uso indevido de título académico (feita pelo dr. José Maria Martins)



Desta vez

(em actualização)
.
Actualização pelas 13:30 de 20-6-2007: Há pouco, num furo de Carlos Rodrigues Lima, o Expresso Online revelou que "José Sócrates apresentou uma queixa-crime contra o blogger António Balbino Caldeira devido ao conjunto de textos que este professor de Alcobaça escreveu" sobre o Dossier (utilização do título de engenheiro e percurso académico do primeiro-ministro).


Texto tirado do blog de António Balbino Caldeira. Embora não seja de um partido da minha simpatia, aqui lhe exprimo a minha solidariedade.


AFINIDADES SEMÂNTICAS


Na Medicina dos anos 80 falava-se de Arsenal Terapêutico para vencer as doenças. E à aplicação continuada de um determinado fármaco chamava-se Choque Terapêutico. Metáforas militares, blindadas. Estava-se em guerra com a doença, que era preciso erradicar. O médico assemelhava-se a um guerreiro contra a Patologia, provisto das novas armas de sucesso que a tecnologia da saúde lhe parecia dar.

As osmoses semânticas entre a linguagem da medicina e a do Exército, entretanto são mais do que muitas. Se na medicina existiam bolsas de pús, necessitadas de drenar, ou de vencer graças a antibióticos (recordar que biótico vem de bios, que em grego signfica "vida") no calão técnico militar havia bolsas de guerrilheiros. Erradicar metástases na medicina correspondia ao erradicar de bolsas de guerrilheiros da linguagem militar, que pretendia a isenção científica, a aparência racional, além da aparente higiene siza-vieriana da linguagem médica.

Mais tarde no Iraque, louvou-se o desenvolvimento teconológico dos "bombardeamentos cirúrgicos", que permitia só destruir o "inimigo" e os seus lugares. De repente, as operações (mais outra palavra do foro médico) militares pareceram-se a cirurgia , não individual, mas social. O Exército seria o Grande Cirurgião, erradicando bolsas de guerrilheiros ou de inimigos, praticando "bombardeamentos cirúrgicos". Legitimava-se por paronímia.

No entanto, os bombardeamentos cirúrgicos soube-se depois, não eram assim tão "cirúrgicos". A sua precisão deixava muito a desejar. Apareceram, como metástases indesejadas, imensos "efeitos colaterais". Nunca é demais dizer que esta designação com que falsamente se racionaliza e escamoteia o horror da guerra, é uma expressão de falso pudor puritano e significa um rasto de humanos reduzidos a carne carbonizada, a mutilações para toda a vida, a um cortejo de inválidos inocentes.

Dava todo um livro cotejar a linguagem médica com o calão militar-industrial contemporâneo que dão à guerra uma cosmética sanitized. Em inglés não se fala de mortos em combate, chamam-se casualties. Há etimolgias perversas. Casual em inglês e português justamente também quer dizer dispensável, logo não há mortos na Guerra Asséptica, comandada à distância por almirantes e generais gordos sentados diante dos seus PCs. Há baixas e dispensáveis. A boa consciência gosta de coisas limpas. O Sangue é a doida da casa.

Por cá, vinte anos depois das metáforas belicistas da medicina, o nosso PM, cândido crente no Progresso da tecnologia, a sua messias favorita de redenção social, prometeu aos portugueses o "Choque tecnológico". Compare-se com o calão futebolês "chicotada psicológica" (que significa que os jogadores são tratados comon cavalos ou escravos, pois nenhum psicólogo aconselharia tratamento a chicote, nem por metáfora) e com o "choque terapêutico" dos anos oitenta. A procura de uma aparência racional, de um atitude de terapia social guerreira, radical é uma manifestação de força. Sem dúvida trata-se como nos fascismos (Mussolini, que amava a "força" adoptaria perfeitamente esta terminologia da engenharia social, bem como o famigerado Stakanov, o "génio" soviético da produtividade).



FATUM, DE NOVO, NA VELOCIPÉDICA MODERNIDADE


O nome de Destino mudou para Carreira, o de velhice para Terceira Idade, deixou de haver jardins e há Espaços Verdes, um cego é um invisual, um maneta um deficiente físico. Mas isso não impede que um Maneta tenha um Destino, e envelheça, fique cego e caia morto num Jardim arrasado pelos bulldozers.


Auto-retrato de Leonardo, na velhice

A SENILIDADE SALOIA DO BUSINESSMAN


Não sou do Benfica, descendo de três fundadores do Sporting, que também foram do Sporting Clube de Cascaes, por isso estou à vontade para dizer o seguinte. Rui Costa é um grande jogador e, coisa admirável, sabe falar. O sr. Berardo que conseguiu impingir ao Estado uma colecção de arte mais do que duvidosa (que agora miseravelmente atravanca o Centro Cultural de Belém) não sabe falar. A sua pronúncia é uma mistura de madeirense de vilão com inglês de terceira, de Pretória, ou ainda menos. Além disso, veste como um comissário de exposições, ou seja, é mais uma vítima empinada do estilo Armani, T-shirt eterna dentro de fato escuro. E tem duplo queixo, uma papada enorme que lhe evidencia a trémula e justamente espapaçada basófia.
A colecção de arte do sr. Berardo, se bem que representativa de artistas ditos contemporâneos e decadentes como o costureiro de latas de tomate Warhol, tem na sua maioria peças de 3a escolha e é de uma indigência senil. É de facto uma colecção de terceira idade, que envelheceu à velocidade da luz, e que o Estado Português, débil criatura, forçado pelos triliões do aventesma Berardo foi forçado a comprar, depois do mesmo, chantagisticamente, ter ameaçado que a venderia para o estrangeiro. Um daqueles sátrapas árabes dos Emirados em cujo sangue corre petróleo, infelizmente para nós, não comprou a dita colecção.
O sr. Berardo, percebe-se imediatamente, é a encarnação do novo piroso, do novo rico recente, estilo bulldozer, com declarações bombásticas e radicais. De repente, tornou-se o dono do Benfica e daquela língua de trapos começaram a sair declarações de racismo etário em relação à grande figura desportiva e humana que é Rui Costa.
Este, sempre que jogou na época transacta deu um ar da sua graça, inteligência táctica e presença no campo. Sempre que jogou o Benfica jogou melhor, com mais talento. Eu, sportinguista convicto, mas não faccioso, gosto de ver o Benfica a jogar no seu melhor, e Rui Costa faz parte desse jogar melhor. Imprime uma subtileza, um toque próprio e tem uma visão de jogo que só os grandes jogadores possuem.
As declarações do sr. Berardo que de um dia para o outro apareceu, invasivamente, como dono do Benfica, a querer alterar tudo e todos, não são só só infelizes e lamentáveis, são a expressão do novo riquismo piroso que lhe vai na alma. Mais ainda, é parecido a este Governo, no fato, na atitude, no reformismo brutal.
Será indiscutível o talento do sr. Berardo no jogo bolsista, a aspirar mais biliões para a sua voraz e sempre insatisfeita algibeira, mas vê-lo a imprimir a sua falta de elegância num grande clube é triste. Não é só o Benfica que foi vilipendiado, foram todos os jogadores com mais de 30 anos, e por extensão todos os praticantes de futebol e os que gostam de ver jogar. Porém, este atestado de senilidade por ele passado vira-se contra o mesmo. Dá sempre que pensar quando vemos as Hidras de Salerno que acabam mordidas pelas suas próprias cabeças. Cresce-lhes forte e simbólica, a papada, sinal da fatídica batata mole por cima da língua e do pensamento.


2007-06-19

A AVE DOS CONTORNOS DIFUSOS

Eu hoje tive sorte, vi a ave dos contornos difusos. Não sei bem se foi um ver dos olhos ou da mente depois da mente.

Estes poderosos dias de chuva de verão, para mim que vivo no campo e sinto a força dos elementos, levaram-me de volta a interrogar o shamanismo. Nas cidades a chuva também é maravilhosa e transforma-as. Num dia de chuva alguns de nós percebem que não são sólidos. Somos barcos, osmoses, reflexos de anúncios que acariciam a copa das árvores.

Uma das coisas fantásticas do campo é que não há anúncios em parte alguma. Parece um truísmo. Mas os anúncios da cidade interceptam de mil maneiras a visão. Nem sempre de um modo déspota, impondo o seu mantra, o seu produto, a sua narrativa imperativa - sobretudo quando chove ou quando a pessoa os sabe fazer alucinar ou os cruza com nevoeiro, fumo de escape, ou mais subtil com a aura dos harambazords. (ver posts anteriores)

Às vezes esta dualidade cidade/campo desaparece. No campo vejo altas chaminés na copa dos graves pinheiros, na cidade vejo um prado de papoulas construído pelas luzes de travagem dos automóveis no asfalto húmido. Um Manet moderno pode deliciar-se num engarrfamento, à chuva! Eu não entendo histéricos da pressa. Que diabo, há que alquimizar as combustões do quotidiano...Uma vez a bordo de um boeing a caminho da Índia vi que a hospedeira era um cogumelo.

Também não entendo gente ressentida com os infernos, urbanos ou interiores: se estão lá é por pura escolha, são da sua lavra. Há uma falha humana no ressentimento. Não percebo porque não fizeram dele um pecado capital. Nietzche achava-o próprio dos escravos. Vejo-o como o mosquito gigante da alma.


Felizmente as papoulas não tem Bíblia nem os Lírios ataques de narcisismo. Digo isto porque nos últimos tempos antes destas chuvas, abençoadas em África pelo shaman, tenho visto pessoas-Bíblia além dos clássicos atacados por Narciso, uma hoste cada vez mais numerosa e débil, enclausurada nas teias de um nada interior. As pessoas-Bíblia, por exemplo, andam muito zangadas com os tempos e com os outros. Dão corda à barba com tiradas indignadas.

Não é que eu adore estes tempos. Preferia viver no século XIX, com electricidade, num Castelo. Mas acho-os, como a todos os tempos, impermanentes. Por isso não me zangam, nem perturbam. De certo modo pus no monóculo uma certa contemplação sub spetiae aeternitas. Não é que as coisas, lá por isso fiquem mais calmas. mas eu fico. Assisto à turbamulta do mundo com um espírito perfeitamente plácido.

Estas chuvas tem-me andado a transformar em espel
ho.

Mas não quero ver pessoas zangadas, já vi os angry young men de todas as praças do mundo. In anger deita-se mais fumo pelo crânio, eis tudo. Por onde pára o anjo-clown?

REINVENTANDO A DISTÂNCIA

Alphabets were originally lists of archetypes,'' Zolla points out, ''ours starting from Alpha, the bull of sacrifice, and Beta, the temple and sacrificial bowl or grail.'' Such systems assign to each archetype symbols that resonate through the imagination at all levels - geometrical, musical, material, temporal, spatial. The calendar of religious celebration is an archetypal system; so are the diagrams and prayers of the Hebrew cabalists.

Archetypes pervade mythology. Romulus and Remus, the twins who founded Rome, were nursed by a wolf under a fig tree. The fig tree was sacred to Venus and Dionysus; in classical lore figs were linked with crime, wolves and ritual lewdness. In Greece exiled criminals wore necklaces of figs; wolves share etymological connections with death and prostitutes; twins are linked with the fig tree in a Hindu myth. Romulus, who kills Remus, is compared by Mr. Zolla with Cain - the primal murderer, founder of cities. The linked archetypes in these tales carry power, calling upon ancient associations, revealing a culture's cosmology and its connections with more primal realms.

Zolla also believes poetry derives its power from archetypes. He invokes the English Romantic poets - Blake, Coleridge, Wordsworth, Shelley, Keats. His selection is judicious; they saw themselves as prophets whose poems were meant to exercise mythological power. ''A poet needs a mythology, a pantheon,'' says Zolla, ''as much as his ancestor the shaman did.'' Clowns also manipulate archetypes, inverting and distorting them. The archetypal religious journeys represented in the Catholic mass and the popular tales of the harrowing of hell (even Dante's ''Divine Comedy'') have counterparts in the coronation rites of Babylonian kings, in Indian tales and in Balinese drama. (Texto de Edward Rothstein, críitco de música)

Imagem de um shaman

2007-06-18

O MINISTRO ENOJADO COM A FEIRA DA LADRA


O ex- Ministro Correia e Cunha, com nojo evidente, comparou a Portela a uma Feira da Ladra.
A que coisa compararia ele um Ministro que Ladra?

A Feira da Ladra, apesar de tudo (a invasão de tendas a vender roupa nova e barata para o neo-proletariado urbano depressivo), continua a ser um dos mercadøs ao ar livre mais interessantes de Lisboa. Ainda se podem comprar lá postais dos anos vinte, grafonolas, cadeiras velhas, tremós...e é sempre interessante de ver, para quem consegue ver nas velharias símbolos e mapas de tantas mentes que passaram por Lisboa. Mas para o sr. ex-ministro que tem ar de híbrido de testemunha de Jeová com banqueiro a Ladra é infecta, como deve ser infecta uma tasquinha onde se comam caracóis ou iscas.

A DITADURA POLICIAL SOCIALISTA

Alucinei? Alguém mais ouviu dizer que seriam agentes da PSP a distribuir as folhas do test nos exames do 12 º que começam amanhã?
A Escola Polícia, o polícia auxiliar de pedagogia?

2007-06-17

DO GOSTO PELO NOVO DESERTO






Hoje disseram na TV com aquele ar de consternação oficiosa de quem veste a camisola das grandes causas que Portugal é um dos países com maior desertificação na Europa. Para mim são excelentes notícias. Cultivo uma discreta antropofobia, que é perfeitamente compreensível quando se vive em tempos de grunhos.

Irei fazer um novo Castelo no deserto, portanto. E devo dizer que o deserto é um sítio excelente para licantropos, mesmo amadores, como eu sou. Sobretudo este deserto, a tundra alentejana, em que tenho o maior gosto de viver, com a menor densidade de gente por km2 do país.

Imagem: Piteira (pormenor) fotografia de Susana Neves

ISTO DE SENTIR-SE UM ÍNDIO EM TERRA ESTRANHA


Embora nenhum índio me tenha mandado um mail ou um sinal de fumo a confirmar o facto, a verdade é que em Portugal me sinto um Índio. Não é um sentimento confortável, ou de que eu me orgulhe especialmente, este de ser uma micro-minoria. Como é que no meio de uma maioria inverosímil de provincianos pequeno-burgueses, fundamentalistas do desenvolvimento, deslumbrados por automóveis, televisão e grandes centros comerciais me posso alguma vez sentir bem com eles ou eles se podem sentir bem comigo, que gosto de andar a pé pela terra, de sentir o olhar tocar nas árvores (cada vez menos) e nos bichos (tão poucos).
Depois devo dizer que não tenho a coragem dos Robin Hood, nem dos existencialistas. Estar só, como estou, contra a multidão de facto ignara requer uma imensa coragem e eu não disponho senão de uma pequena mescla de coragem e de medo (pânico).
Por isso ando a fomentar as armas de sobrevivência massiva do pensamento. E agora já sei quem são os extra-terrestres: são todos os que não andam a pé pelos caminhos sem caminho da terra. O assustador é que este país está cheio deles, ou então de estratosféricos, além, de imortais secundários e de inúmeros conselheiros que sobraram do século XIX. além de uma onda sem precedentes de grunhos que enchem estádios.
Gostava de ter os dons do ilusionista Houdini, ou seja, saber desaparecer no meio da multidão de queixadas lineares, de rostos magnetizados por cartões bancários que se dirigem com imensa hostilidade involuntária para os seus postos de trabalho. (Devia haver postos de preguiça. Trabalhar mais para quê? Para quem? para um destino de esquizovia? ). Mas não tenho. Ainda tentei tirar um curso para ser invisível, mas a empresa Reiter&Reiter faliu e não mandou mais nada para além do terceiro videodisco. Fiquei só a saber os preliminares. Alma réproba que sou aqui vai o primeiro princípio da Arte de Ser Invisível: A pessoa deve mover-se fazendo o mínimo de movimentos possível.
Já roubei uma bela sandocha de presunto com este princípio sem ser visto. mas desconfio que não foi por me ter tornado invisível, apenas por ter ficado mais ardiloso e atento, como compete a uma espécie perseguida.






ESQUIZOVIAS & URBANISMO DOENTE


Se aLmada há mais de cinquenta anos atrás estava certo em ser modernista hoje sê-lo é tudo menos ser contemporâneo. Mas todos os partidos insistem na tecla de "modernizar o país". Há mais de 30 anos que se anda a modernizar o país, ou seja a torná-lo cada vez mais entregue aos empreiteiros patos bravos e aos sizentos Siza e epígonos. Resultado: um país feio, com urbes e suburbes feias, depressivas e doentes. Um litoral cada vez mais arruinado e feio. Um interior desertificado e evnevelhecido. Uma arquitectura doente por todo o lado e uma fixação patológica em detestáveis e neuróticos Centros Comerciais e em autoestradas que acabam mais por dividir o território do que por uni-lo. (Efeito paradoxal Drummond das autoestradas que funcionam como esquizovias que separam o imediatamente próximo para ligar o muito distante: ou seja são verdadeiras muralhas da China, que entre outras coisas impedem a livre circulação de pessoas e de animais de um lado para outro da via).

Por isso interrogo-me se ser português hoje não será um erro ôntico ou uma aventura provinciana de complexados.

VENDO UM BANDO DE CORVOS SOBRE OS PINHEIROS


O destino
do corvo
é transformar-se
em mundo
por isso crocita
diante da rosa
trocista
e ergue o
bico negro
como um cálamo
na tarde cheia
de tinta
como um sol
no
nada
verde





NOTA: OK. Eu sei que a árvore na imagem é um eucalipto. Também reparei que está deitada. Mas é esssa deslocação do mundo (ou tresloucação) que me interessa interrogar

CELEBRAÇÃO DA CHUVA DE VERÃO




nas primaveras depois da mente
ergo de novo os meus totens
que se viram para o poder do vento
e antes disso rasgo as minhas bíblias
com riachos cantantes
e muito salto de grilo
entre os verdes meridianos
e as agulhas dos pinheiros
enquanto nos meus sonhos entra
a luz do Sol que não chegou
à terra
especialmente quando
no coração escrito de cada rosa
pulula um veneno trémulo
e eu um demónio de novo encarnado
semeio luz na treva
dos místicos cogumelos
que o shaman tolteca
com olhos de viridiana
para me testar de novo
lançou no meu caminho
e agora levado
pela elegância fatal
das casuarinas
com a terra
empapada de lodos profundos
que novos me parecem
aqueles tempos antigos
em que os deuses
passevam por cima do poema
com a mesma graça
da feroz simetria
do tigre de dentes de sabre

Imagem: mandala chamado Lalita (A Dança de Krishna)

2007-06-16

AS MUSAS NÓMADAS




como qualquer português sou Viriato
traído e Sebastião o desaparecido
e o meu labirinto é o mar
e assim não sendo de nenhum lado
deito fora o fio de Ariana
e é nas sete partidas do mundo
que encontro a minha raíz
por isso não me falem de pátria
nação ou país, todos são meus
sigo o vento e a cor que o diz
e gosto de perder-me depois
de encontrar-me, movido pelos
sete elementos das profundidades
e dou graças às musas nómadas
porque movo o som
do universo

2007-06-15

OS AMANTES INFATIGÁVEIS


só a tua pele me despe
por inteiro
Contra a pele ponho
dentes de tigra
bocas de borboleta
língua de musgo
e neblinas
e é assim
tocada
que voa


De manhã
acordo com um pescoço
de girafa:
mordeste-me no sonho
de noite acordo
dentro duma estrela
a tua língua
lambe-me

as árvores entram
pelo sangue
um beijo demorado
levanta todas as flores
do prado
o poder do amor
é tão vário
vira o dia


desapareço num abraço
que nunca acaba
a confusão dos corpos
é um início de paraíso
quero acordar
fugir e voltar
desapareço no extremo
da luz


morrer eu sei bem
que é entre as tuas ancas
onde mora
o Vale












THOT E ANUBIS


Entendo-me bem com estes dois Senhores Deuses do antigo Egipto, Anubis à esquerda, e Thot, patrono dos escribas à direita. Thot com a sua cabeça de pássaro e a pluma na mão sugere a "palavra alada", enquanto Anubis com a sua cabeça de chacal e o Ank na mão esquerda garante a perenidade da viagem e da razão.

A VIA DO CHÁ


Se estiver em Londres no dia 22 de Junho...pode ir ver uma cerimónia de chá no British Museum, entrada livre.

CANTIGA DAMIGUO EM UÃ NOITE DE CHUVA

não sei se é por gosto
ou ilusão
ando na corda bamba
de ti até mim, de mim
até ao mar
e o sol
e u é
mi amor

não sei se é navegação
ou magia
ando na corda bamba
do sol e do mar
até ti,
por mim
e u é
meu amor

e em corda mais
bamba andarei
de sol a sol
e de mar em
mar
no mar
de ti em mim
e u é
m'amor




2007-06-13

MUDANÇA

Mudança de nome dos Ministérios, a entrar em vigor imediatamente:


Ministério da Destruição Pública em vez de Ministério das Obras Públicas


Ministério da Poluição em vez de Ministério do Ambiente


Ministério do Endividamento em vez de Ministério das Finanças


Ministério da Doença em vez de Ministério da Saúde


Ministério da Difusa Nacional em vez de Ministério da Defesa nacional



Edite-se, Publique-se e Entre imediatamente em vigor,

A Bem da Nação Maçónica,

Ascenço Porkêra,
Miguel Drummond de Castro

2007-06-12

Mr. Pruffrock Revisitado


porque eu estou semi morto
a minha pança adere a tudo
já não vejo as deusas de Cybèle
não contesto a autoestrada
ponho todos os auriculares que me derem
e repito todas as palavras do editorial
porque eu também tenho direito
a uma semiopinião fundamentada

ao sair do restaurante brocho o Silva
que é uma nuvem da literatura
um pouco mais brilhante do que a minha lua

afinal também já fui feliz
a abdicar de sonetos por um beijo
e a meter-me entre as tuas folhas como
o vento pelo arvoredo

agora ciclista de uma perspectiva semicínica
ergo-me nos calcanhares da era
cheio dessas semideias que nos mantem
em banho mania
e se devoro a filosofia
com o ventre apertando os sapatos
com todo o tipo de futuros
é porque eu aposto na modernidade e no desenvovilmento
tenho a queixada palop e os dentes
artificiais com que rio em medida gargalhada
do youtube em que tudo isto fica




PERDÃO CRISTÃO

Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.


Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.
Bento XVI, sorridente, recebe o carrasco de Bagdad e aperta-lhe as mãos cheias de sangue explodido.

2007-06-11

À PROCURA DE MIM MESMO

o meu rosto nem a minha mãe o conhece
nem o conjunto de sibilas gregas
com os seus dedos firmes de gnose o decifra
desfigurei-o com cada viagem
e o vento levou-lhe as linhas
transparentes que o ligavam
à sombra das oliveiras e ao destino
dos últimos centauros evadidos
duns quadros de Tiepolo e de Pralini
o meu rosto finalmente tornou-se ilegível
cruzei-o com planos longínquos
de filmes em que não entrei mas que amei
e foi ficando nevoeiro de coisas pequenas
enquanto ia mudando de castelo
e de reino com o meu estandarte cada vez
mais manchado pelo sangue do invisível
e agora nem o mar nem o céu o sabe

CIAO CINEMA ODÉON


já não podemos ir ao cinema Odéon
gingar de lado como o couraçado Potemkine
e ficar ganzados atrás do Largo do Rato
a curtir a blogosfera
numa de doutor Mamute e Pirofosfato
lançando vitriol no cachecol do doutor Pacheco
nem podemos ir a Algés
nadar dentro do Aquário
ao lado dos grandes lamelibrânquios
que sulcam os bigodes (falsos)
do comendador O'Neill pai da pátria
e também não podemos arrancar
rosas do Rossio
(tiraram-nas! os filhos da Pítia
de qualquer Câmara)
já não podemos ir ao campogrande
fugir dos discursos pirosos
do doutor máriossoares
há chuis e automóveis por toda a parte
há manuelalegres a defender o bispo do funchal
e o motaamaral e a rimar em "ar"
para que se imagine que alguma vez
houve mar em Portugal
neo-Petrogal



FILHOS DA PÚTRIA


Uns mais outros menos
somos todos filhos da Pútria
por isso tirando vernáculos Palinfas
e lagartopédicos Furões
e encinclopeidicos ou magos Coelhos
e pestiferantes Murchos
e filsofofais d'almeidas
e eternos sérgios
mais a cambada de rimbauds filhos da mamã
e de poetunhetas gordos
e de comissários mellos
e de bolsados da Gulbenkiã
ou de laureados do Instituto Camoens
e de de palhíticos e de peuh!líticos
e de Savana-lá-no-cornex
e de palops-já-não-palopo-aqui
e de Bascos Desgraças Mouras
e Manuelalegrudos
com a Pítria a Pútria a tiracolo
somos todos
filhos da pútria



Foto: guerreiro lusitano

A INFÂMIA UNIVERSAL DAS MARCAS


Do lado da minha mãe venho de uma família de megalatifundiários: entre outras coisas, nos seus vastos domínios onde eram reis e senhores, marcavam o gado com ferros. Cada coudelaria, cada ganadaria fazia gala nos seus ferros. Era uma outra espécie de escudo de armas. Todo o gado marcado era nosso. Não havia mistura possível. As vacas, os cavalos, os touros eram "ferrados". Pas de confusion. Originais nossos, para todo o sempre.
Na antiguidade marcavam-se os escravos e também se marcava - com o ferrete da ignomínia - quem se quisesse condenar para todo o sempre à vileza, ao ostracismo.

No nosso tempo as pessoas correm atrás das marcas, para se automarcarem, demarcarem. A crise de identidade é tanta que as pessoas para. pelo menos. terem uma identidade artificial usam com o maior gosto roupas de marca. Uma identidade, mesmo artifical, sempre é melhor do que o vazio de não ter nenhuma.

Mas continua a haver uma homologia estrutural - e estruturante - com as marcas que se punham no gado. Há mesmo um comportamento de gado nas massas humanas desejosas de aparecerem marcadas com as marcas da sua preferência, que na sua opinião os destacam, isolam, ascendem na nova Vanity Fair.

A massificação, que vulgariza e trivializa, por outro lado, produz grandes desejos ascencionais nas próprias massas. A marca, o sinal distintivo é a testemunha exuberante da distinção. Sair do inerte, do conglomerado trivializante, faz-se pela plétora de marcas que se exibem.

A palavra "marca" já desde há uns tempos passou para as narrativas da modernidade deste nosso socialismo versátil e primário. O primeiro ministro, quando toma medidas que ele na sua candura julga serem grandes, fala de "deixar marcas" na história. No fundo, foi sempre esta a ambição totalitária - transformar a face das coisas, deixar marcas. Há uma pavoneamento semântico, uma retórica do sinal e do signo que o quer piramidal, "marcante", duradouro, ameaçando eternizar-se.

O contrário da leveza, o peso. Mas havia um faisão chinês, muito apreciado pelos poetas, que não deixava pégadas ao andar.

que prazer divinal: desmodernizar

Dia quase perfeito: sem TV, sem sms, sem jornal, sem rádio, sem telemóvel, sem correio electrónico. Mas recebi 4 cartas, daquelas antigas, com sêlos e, surpresa! escritas à mão com a caligrafia do longínquo século XX

Ah que belo dia amediático! Nenhuma notícia da última hora se aproximou de mim

Nada melhor do que um uesquebagh anacrónico

Adoro desactualizar-me

2007-06-08




desarmado
como um guerreiro de mãos vazias
voltar a sentir a força silenciosa dos antigos castelos no nosso interior

A ESPIRAL DE MOREAU

Escadaria em espiral que Gustave Moreau mandou fazer na sua casa. À volta os seus quadros neste espaço que funcionava como o seu atelier. Moreau não queria dispersar as suas obras, guardava-as porque "as minhas pobres obras dispersas não fazem sentido, mas reunidas..."